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Chineses no Brasil, Brasileiros na China: trajetórias em movimento

Alfredo Gomes Dias

Macau é uma cidade que se desenvolveu em torno do movimento comercial dos seus portos e da mobilidade de pessoas que, com as mais variadas origens, se foram fixando naquela pequena península do sul da China. Neste sentido, podemos afirmar que a história de Macau é uma história de migrações.

São estes movimentos migratórios e o cosmopolitismo da cidade que explicam as suas características multi e interculturais. A formação da comunidade macaense, na sequência dos contactos entre a população portuguesa e asiática é, talvez, a dimensão mais evidente de como a cidade se alimentou do convívio de diferentes espaços socioculturais, construindo entre eles uma síntese luso-asiática.

A comunidade macaense é, assim, filha dos movimentos migratórios que confluíram para Macau desde meados do século XVI: europeus, onde encontramos portugueses e espanhóis, holandeses e ingleses, e muitos outros; asiáticos que, além de chineses, inclui malaios e japoneses, indianos e tailandeses. Mas, os macaenses vão ser também os protagonistas de um importante movimento migratório que conduziu ao que é hoje reconhecido como a diáspora macaense, que se iniciou em meados do século XIX. A diáspora macaense é, atualmente, uma realidade social que deve ser considerada como parte integrante da projeção de Macau num mundo cada vez mais globalizado.

Neste longo processo de quase dois séculos, o regresso da comunidade dos “portugueses de Xangai” a Macau, a partir de 1949, desempenhou um papel fundamental na dispersão da comunidade macaense pelo mundo, assumindo, na sua plenitude, os contornos de uma diáspora.

É neste contexto que emerge o tema dos “refugiados de Xangai”, importando problematizar o seu contributo para a compreensão das mudanças que ocorreram nas práticas migratórias dos macaenses: os limites territoriais de uma Ásia próxima foram rompidos e outros países dispersos pelos cinco continentes foram adotados como territórios de destino. Tendo por base uma investigação que desenvolvemos entre 2007 e 2015 sobre o fenómeno global da diáspora macaense[1], o presente capítulo propõe-se aprofundar o estudo sobre o movimento dos “refugiados de Xangai”, reconhecendo nele o processo histórico que construiu a ponte entre Macau e o mundo.


[1] Dias, A. (2014). Diáspora Macaense. Macau, Hong Kong, Xangai (1850-1952). Lisboa: Centro Científico e Cultural de Macau / Fundação Macau; Dias, A. (2015). Refugiados de Xangai. Macau 上海葡裔難民在澳門 (1937-1964). Macau: Instituto Cultural do Governo da Região Administrativa Especial de Macau / Arquivo de Macau. (edição bilingue: português e chinês); Dias, A. (2016a). Diáspora Macaense. Territórios, Itinerários e Processos de Integração (1936-1995). Macau: Instituto Cultural do Governo da Região Administrativa Especial de Macau; Dias, A. (2016b). Refugiados de Xangai. Macau (1937-1964). Fundo Documental. Macau: Instituto Cultural do Governo da Região Administrativa Especial de Macau / Arquivo de Macau.

Dias, A. (2022). Macaenses, migrações e refugiados: Macau e Xangai (1937-1964). In Ana Carolina Costa Porto, André Bueno, Kamila Czepula & Victor Hugo Luna Peres (Orgs.), Chineses no Brasil, Brasileiros na China: trajetórias em movimento (pp. 217-242). Universidade do Estado do Rio de Janeiro. [ISBN: 978-65-00-52650-9]

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Macau: Guerras e Neutralidades

Alfredo Gomes Dias

Pensamos que o futuro de Macau passa, hoje, pelo seu passado. As especificidades históricas e culturais do Território transformaram-no num fenómeno ímpar no Extremo Oriente e no Mundo. Mas de todas as singularidades há uma que se impõe a todas as outras, a saber, o facto de Macau ser um exemplo de diálogo, de entendimento e de paz, num espaço caracterizado pela diversidade cultural, social e política.

Ponto de encontro de povos e culturas muito diferentes, Macau deixou um legado que importa preservar na memória colectiva das futuras gerações: a capacidade de resolver os problemas que foram surgindo na convivência multicultural, donde resultaram momentos de tensão, de confronto e de diálogos interrompidos, mas privilegiando sempre os interesses comuns em detrimento das divergências conjunturais.

Apesar da origem de Macau ser ainda hoje eleita como uma das grandes questões da sua História, atrevemo-nos aqui a defender a ideia de que o mais importante, tendo em conta a construção de um futuro para Macau com identidade própria, é compreender os factores que viabilizaram este encontro permanente de civilizações ao longo de quatro séculos e meio. Para nós, a razão primeira reside na realidade histórica de que Macau se manteve, estruturalmente, como uma porta aberta para a paz.

Publicado na revista Macau, III Série, N.º 5, Janeiro, 2001, pp. 62-69.

Macau e a Revolta Taiping

Alfredo Gomes Dias

Entre 1850 e 1864 a China foi palco de uma profunda revolta popular que contribuiu para abalar o milenar Império Celestial. Macau assistiu e manteve, mais uma vez, uma neutralidade que o distanciou das restantes potências ocidentais.

Macau sempre expressou as suas opiniões sobre os principais acontecimentos políticos que ocorreram na China. De estranhar seria se tal não acontecesse. Contudo, o que importa realçar são as opções políticas que aquelas opiniões traduzem. Independentemente do século ou do ano, Macau sempre soube que daquelas opções dependia em grande parte o desenvolvimento ou, em certos momentos, a própria sobrevivência do Estabelecimento.

Não nos parece que a História seja o instrumento correcto para apontar dedos acusadores ou enaltecedores àqueles que tinham por missão preservar um espaço estranho em terras alheias. Fundamentalmente o que interessa é tentarmos perceber as razões dos caminhos que foram escolhidos e que permitiram, apesar de todas as críticas, que Macau existisse enquanto espaço português na China ao longo de quatro séculos e meio.

Se hoje, tal como no passado, entendermos que as opções do território visam, em última instância, criar as condições para que Macau continue a ser um espaço diferente dentro da China, fácil é também de perceber que este objectivo só será (e só foi) alcançado porque o Estabelecimento nunca se esqueceu que era fruto das relações politicas, diplomáticas e económicas que mantinha com o gigante chinês.

Se a I Guerra do Ópio representa o modo como os ventos de fora influenciaram o novo rumo que o Império Chinês foi obrigado a seguir, a revolta Taiping reflecte a degradação que a situação interna da China tinha atingido.

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Publicado na revista Macau, II Série, N.º 40, Agosto, 1995, pp. 40-47.

A Diplomacia ou a Guerra

Alfredo Gomes Dias

Após a morte de Ferreira do Amaral em 1849 surge em Macau uma forte corrente de opinião favorável a uma intervenção militar portuguesa contra a China.

Macau vive hoje os últimos anos de um ciclo histórico que vai ter o seu final em 1999. É em momentos como este que o debate de ideias sobre o que foi o seu passado adquire novas dimensões e significados. Perante as incertezas do seu futuro, procura-se no passado resposta para as interrogações do presente.

Hoje assiste-se novamente a um velho confronto entre duas correntes de opinião sobre a forma que devem assumir as relações entre Portugal e a China em torno da questão de Macau. Por um lado, encontramos uma corrente que aposta, fundamentalmente, no estreitar dos laços diplomáticos ao nível de Estados cimentado no envolvimento das diferentes comunidades que coexistem em Macau na teia de interesses económicos locais. Por outro lado, uma segunda corrente de opinião, manifesta-se a favor da necessidade de uma diplomacia mais agressiva, entendendo que sem uma posição de força não será possível a Portugal tirar contrapartidas que dignifiquem o seu brio nacional.

Eis um debate que tem acompanhado a História de Macau Contemporâneo.

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Publicado na revista Macau, II Série, N.º 37, Maio, 1995, pp. 22-26.

O Significado da Morte de Ferreira do Amaral

Alfredo Gomes Dias

Com a morte de Ferreira do Amaral morre também Macau Antigo. Mas as sementes da modernidade já haviam sido lançadas para que Macau pudesse renascer de novo.

O ano de 1849, em Macau, foi marcado pelo dia 22 de Agosto. O assassinato do governador João Maria Ferreira do Amaral assinala o fim de Macau Antigo e de um modo de Macau se relacionar com o Império da China que já não se adaptava ao quadro de uma nova época que nascia das cinzas da I Guerra do Ópio.

Entre 1839 e 1849 decorreram dez anos em que Macau viu ruir à sua volta, rapidamente, um mundo onde estava habituada a viver sem sobressaltos que o obrigassem a pensar sobre si próprio.

Mas, para compreendermos em toda a sua extensão o peso que teve o governo de Ferreira do Amaral em Macau temos de nos encontrar não só com o Governador mas, também, com o Homem que ele foi.

Na História é assim! Existem figuras cuja personalidade marca, de uma forma significativa, o seu percurso nos corredores do poder, quer sejam dentro de um palácio ou de um ministério, num campo de batalha ou nas ruas de uma cidade ou aldeia. João Maria Ferreira do Amaral é um destes personagens históricos de quem é impossível separar o seu percurso político do seu modo de ser, de sentir, de viver e de morrer.

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Publicado na revista Macau, II Série, N.º 35, Março, 1995, pp. 50-54.

As Negociações de 1843/44

Alfredo Gomes Dias

Depois da I Guerra do Ópio Macau tenta encontrar um novo caminho que lhe permita adaptar-se aos novos ventos que sopravam no extremo-oriente: diplomaticamente e com a China.

Passada a crise de 1839 e os anos em que decorreu o conflito anglo-chinês que ficou conhecido na história como a I Guerra do Ópio, Macau procurou, na medida das suas possibilidades, encontrar uma resposta aos novos desafios que se erguiam à sua frente sem compreender, contudo, as verdadeiras consequências dos acontecimentos que se encontrava a viver.

As negociações de 1843/44 que se vão desenrolar em Cantão e Macau são mais um exemplo do modo como o Estabelecimento sempre impediu a sua ruína contrariando o fim que muitas vozes, ao longo da sua história, vaticinaram. Assim, Macau demonstrou a sua autonomia face à inoperância de um governo em Lisboa que não podia, ou não sabia, qual o rumo a dar a um território que assinalava a presença portuguesa no extremo-oriente. Mas não só. Demonstrou também que apesar das dificuldades daquela época, marcada pelos confrontos militares a que tinha assistido recentemente, podia continuar a acreditar na possibilidade de negociar a sua existência com a China, diplomaticamente.

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Publicado na revista Macau, II Série, N.º 34, Fevereiro, 1995, pp. 36-42.

1839 - Um Ano de Crise em Macau

Alfredo Gomes Dias

Hoje, em Macau, está generalizada a discussão sobre o futuro do território e sobre o que são e serão as relações entre Portugal, Macau e a China. Mas não se pense que esta discussão começou com a assinatura da declaração conjunta.

As discussões que estão hoje na ordem do dia sobre Macau têm a ver fundamentalmente com o tipo de relação que o território mantém com a R. P. da China e de que modo é que essa relação irá evoluir a partir de 1999. Tudo depende desta questão fundamental e ela acompanhou sempre os 450 anos da história de Macau. Contudo, assumiu contornos diversos de acordo com a época histórica que se vivia em Portugal, na Europa e na China e, também, de acordo com a conjuntura política regional do extremo-oriente.

Hoje presenciamos ao fechar de um ciclo histórico que começou há cerca de cento e cinquenta anos. De facto, se fossemos obrigados a indicar o ano que marca o início da época contemporânea da História de Macau não tinhamos dúvidas em escolher o de 1839. Por ser um ano de crise que termina com o deflagrar da I Guerra do Ópio entre a Grã-Bretanha e o Império da China (declarada a 3 de Novembro), ele deixa vir à superfície todas as dúvidas e certezas sobre o modo de estar e viver de Macau enquanto Estabelecimento Português em terras do Celeste Império. E, também como hoje, não podemos descurar a presença de uma terceira potência no cenário regional, a Grã-Bretanha.

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Publicado na revista Macau, II Série, N.º 33, Janeiro, 1995, pp. 58-65.

Isidoro Francisco Guimarães. Um Governador e Três Tratados

Alfredo Gomes Dias

Para entendermos Macau, hoje, temos de fazer o esforço de recuarmos 150 anos e encontrarmos a origem mais recente de todos estes acontecimentos que vemos passar aos nossos olhos, agora que estamos a um pequeno passo de 1999.

Macau vive hoje um período de transição para um futuro já definido mas cujos contornos permanecem ainda sob a forma de um gigantesco ponto de interrogação. Não é, contudo, a primeira vez na sua história que se depara perante caminhos encruzilhados, necessitando de definir e projetar a sua existência enquanto realidade autónoma no contexto político-regional em que se insere. Poderíamos até considerar que a História Contemporânea de Macau não é mais do que a busca constante de um espaço próprio, viável do ponto de vista económico, atraente socialmente, e independente politicamente quer face ao distante poder de Lisboa quer no quadro das relações político-diplomáticas do extremo-oriente.

Publicado na revista Macau, II Série, N.º 32, Dezembro, 1994, pp. 59-65.

Macau entre Portugal e o Japão. O Tratado de 1860

Alfredo Gomes Dias

Em 3 de Agosto de 1860 Portugal e o Japão assinam um Tratado de Paz, Amizade e Comércio. Em Agosto de 1993 comemoram-se os 133 anos sobre o reatar de uma relação interrompida durante mais de dois séculos.

Entre 1543 e 1993 decorreram quatrocentos e cinquenta anos.

Ao comemorar-se quatro séculos e meio de relações entre dois países é lícito supor que ao longo deste tempo se mantiveram laços políticos, económicos ou outros que justificam uma celebração.

Contudo, no caso das relações entre o Japão e Portugal, as coisas não se passaram exatamente assim, registando-se um hiato de mais de dois séculos nos contactos entre os dois países.

As comemorações do presente só têm um verdadeiro sentido quando se baseiam num verdadeiro conhecimento do passado. E a história destes quatrocentos e cinquenta anos ainda está longe de se encontrar feita de uma forma minimamente satisfatória. Se para o primeiro período podemos consultar alguns estudos e artigos, para as relações estabelecidas na época contemporânea ainda tudo está por fazer.

Publicado na revista Macau, II Série, N.º 17, Setembro, 1993, pp. 42-46.