
HISTÓRIAS DA CIDADE
Em Macau… “piratas, que se diz terem as caras pintadas, roubaram tudo quanto tinha a lorcha”
Alfredo Gomes Dias
… a lorcha estranha atacou aquela em que ia o cristão José Leão, e que levava a bordo dinheiro e ópio… (Ta-Ssi-Yang-Kuo, 1 de março de 1866).
Macau, 1866.
Uma história de piratas é sempre mais do que uma história de piratas.
Seguindo uma prática de todos os dias, também na terça-feira, 21 de fevereiro de 1866, foram várias as embarcações que saíram de Macau, procurando destinos que alimentavam a Cidade de gentes e produtos. Duas embarcações largaram a barra, levando consigo um “cristão”, de nome José Leão, e um grupo de chineses, corretores que iam ao encontro de mais uma leva de emigrantes que, uma vez colocados em “um dos depósitos de Macau”, aguardariam a viagem que os levaria, provavelmente, a uma das Américas. E, entre as mercadorias a bordo, o dinheiro e o ópio mantinham vivas as marcas de excelência de uma Cidade que se rendia às virtudes de um comércio nem sempre virtuoso.
Estas duas embarcações receberam a inocente companhia de uma insuspeita lorcha que, ao cair da noite, as transformou em vítimas de mais um assalto violento. Se a embarcação mais pequena conseguiu fugir e regressar a Macau, a maior não teve tanta sorte, exatamente aquela onde seguiam os passageiros e as ricas mercadorias. O “cristão” Leão ofereceu a resistência possível, frente àquele grupo de piratas de “caras pintadas”, enquanto a guarnição, pela sua fácil rendição, recebeu a recompensa de não ter sido “roubada do que tinha”.
Cada um destes personagens conheceu um final diferente nesta história de piratas nos mares de Macau.
O “cristão” José Leão, ferido na luta, “atirou-se ao mar, e não apareceu mais. Julga-se morto”, deixando no “desamparo a sua mulher e bastantes filhos”.
Os corretores chineses foram encarcerados no porão enquanto durou a pilhagem, recuperando depois a liberdade para continuarem a privar da liberdade aqueles que eram obrigados a procurar vida noutras paragens.
Os tripulantes não resistentes, tornaram-se suspeitos aos olhos de uma polícia sempre atenta, que reconheceu, entre eles, quatro piratas que atuavam naquelas águas. E, na segunda-feira seguinte, tendo novas dos assaltantes, lá saiu de Macau o tenente Caminha… a caminho de uma deceção, pois os piratas debandaram “para a costa de oeste”.
Quanto aos piratas, refugiados, algures, num porto de abrigo, levaram consigo uma parte de Macau: mataram um “cristão”, saquearam corretores que saqueavam outras vidas… e amealharam dinheiro e ópio, excelentes moedas numa Cidade, onde tudo se trocava por um lucro fácil e sonhos enganadores.
Publicado em www.alfredogdias.com (2020 09 06)
Em Macau… “o mouro pretende entrar, a surgir neste porto”
Alfredo Gomes Dias
… e se lhe permita a entrada, porque a necessidade em que está esta Cidade, não é para desprezar qualquer conveniência… (Termo sobre a entrada de um Barco Mouro neste Porto, 1717).
Macau, 1717.
Todas as cidades portuárias convivem com a diversidade dos homens que chegam e partem ao ritmo do comércio. Macau não é exceção, mas teve a singularidade de conhecer esta convivência para além dos limites das áreas de influência direta do porto. Em Macau, porto e cidade confundiram-se ao longo de vários séculos de história. Só em meados de oitocentos, esta osmose quase perfeita se desvaneceu, quando o porto deixou de ser a porta por onde entravam o presente e o futuro da Cidade.
Porém, no século XVIII, porto e cidade muito dificilmente se distinguiam. Macau era uma estreita península, uma linha de terra que se mantinha em contínuo diálogo com as águas, fluviais e marítimas, que com ela conviviam diariamente. Terra e água, os elementos naturais que geraram uma sociedade diferente, numa Cidade que se manteve aberta à entrada de gentes de diferentes culturas e de variados credos, porque eram elas que alimentavam o comércio que, naquele século, ainda era o sangue de Macau.
Em setembro de 1717, um barco mouro vagueava entre as ilhas vizinhas de Macau, aproximando-se do porto e desejando entrar na Cidade onde o comércio já não abundava. Contudo, havia negócio suficiente para atrair um muçulmano que, com certeza, nunca deixaria escapar a oportunidade de acumular mais algum lucro a partir de umas quantas trocas naquela terra geradora de riqueza, mesmo que para isso tivesse de desembolsar algum dinheiro.
Não foi necessário esperar pelo estabelecimento dos portugueses em Macau, em meados de quinhentos, para que a região do Delta do Rio das Pérolas conhecesse a visita de mercadores muçulmanos. Existem notícias destas visitas que remontam à dinastia Tang (618-907), em particular na cidade de Cantão. Com mais ou menos notícias, gravadas nos documentos que até nós chegaram, sabemos que no século XVIII, mercadores e marinheiros muçulmanos, muitos deles vindos de Surat, navegavam nos seus próprios navios ou juntavam-se às tripulações de barcos britânicos ou holandeses. Assim, não era de admirar a aproximação de mais um barco muçulmano, tal como também não se estranhava o seu desejo de fazer comércio em Macau. Uma vontade que o mouro manifestara a um dos homens bons da Cidade e que se traduziu numa oferta de mil patacas para pagar a entrada no porto.
Reuniram-se os homens bons de Macau, na Casa da Câmara, no dia 26 de setembro, disponíveis para discutir e deliberar sobre aquela oferta, mas “regulando pela penúria, e empenhos a que está esta Cidade”. Macau, um porto de abrigo, uma ponte que ligava o mundo chinês aos outros mundos, estava agora disponível, como sempre, para receber nas suas praias e mercados mais um comerciante mouro, em nome dos bons negócios. Tanto mais que as fraquezas da atividade do seu comércio davam sinais de não quererem parar de aumentar, em cada ano e década que passavam, após a morte das Naus da Prata decretada em 1639. Também por isso, não se podia deixar de tentar que o mouro subisse a sua oferta, pelo que os homens bons deliberaram “uniformemente se fizesse toda a diligência para que se alargue mais”, mas sem pôr em risco as mil patacas já garantidas, relembrando “a necessidade em que está esta Cidade”, pelo que não se poderia desaproveitar tamanho benefício.
Em setembro de 1717, a Cidade de Macau do Nome de Deus na China aceitou abrir o seu porto a mais um barco mouro, revelando não só a magnânima vontade de receber no seu seio todos os que a quisessem visitar, mas também a necessidade de com eles negociar para reduzir o seu estado de decadência e penúria. Uma grandeza manifestada, respeitando o princípio de que um bom negócio é cego, surdo e mudo quanto à origem das indispensáveis patacas que ajudam a respirar a Cidade em tempo de tão grande crise.
Publicado no jornal Hoje Macau, em 15 de agosto de 2008.
Em Macau… “se arbitrou o referido castigo”
Alfredo Gomes Dias
… o castigo que se deve dar ao cafre, cujo delito a todos é presente, causa, que podia servir de uma total ruína à terra… (Termo sobre o castigo, que se deve dar a um Cafre, que feriu um China, 1719).
Macau, 1719.
Macau também era uma Cidade de servos e senhores.
Os homens livres deixaram-nos a imagem, através dos seus escritos, de serem os únicos habitantes da Cidade, no entanto, tinham ao seu serviço outros homens que se encontravam privados de escolher o seu destino próximo e futuro: alguns vinham de perto, daquela meia ilha a que se chama Timor; outros vinham de mais longe, de um outro continente denominado África.
Da costa oriental africana chegavam os cafres, gente diferente entre as muitas diferenças que conviviam em Macau. Escravos cuja cor, estatura e feições ajudavam a guardar os seus senhores de outros servos, alguns deles livres mas dominados pela sua miséria e opulência vizinha.
Todos os seres humanos, principalmente quando privados de liberdade, procuram satisfazer alguns prazeres que deem significado à sua vida ou que, simplesmente, ajudem a esquecê-la. Para o conseguir, o dinheiro era indispensável e, para um escravo, ter dinheiro era quase sempre sinónimo de roubar. Por isso, eram muitos os cafres que roubavam, mantendo sempre um sentido igualitário nos seus comportamentos criminosos, pois as suas vítimas tanto eram europeus como chineses, homens ou mulheres…desde que fossem portadores de algumas moedas que pudessem ser utilizadas ou de um objeto passível de ser negociado.
Numa noite, no princípio do verão de 1719, dois chineses aventuraram-se a caminhar nas ruas de Macau. Um deles, era “rendeiro, e cobrador do Hopu das rendas do Imperador”, mas nem por isso deixou de cumprir a regra de assinalar a sua presença com duas lanternas. Os dois chineses transformaram-se facilmente em presas fáceis para quem procurasse dinheiro alheio. Um cafre surgiu e atacou, tentando roubar os dois chineses aventureiros numa noite de poucas venturas.
Talvez o cafre não esperasse a resistência que lhe foi oferecida pelos chineses. Talvez por essa razão espancou e feriu o chinês rendeiro, batendo-lhe com uma espada na cabeça. Mais tarde, confessou que se não surgisse gente a gritar para acudir à sua vítima “sem dúvida que o mataria”… e às moedas roubadas somar-se-iam também duas vidas.
No dia 10 de junho de 1719 “como foi este o crime, se arbitrou o referido castigo”.
Neste dia, os homens bons da Cidade reuniram-se na Casa da Câmara, convocados para conhecer a ocorrência e decidir o castigo a aplicar, de preferência “para exemplo dos demais”. Aliás, os juízes têm sempre esta ilusão de que os castigos que decidem servem de modelo, mas a humanidade tem dado repetidas e quotidianas provas de ser incapaz de seguir esses inúmeros exemplos que já testemunhou. Erro da humanidade, engano dos juízes?...
Exemplar ou não, a punição foi decidida pelos homens bons presentes na reunião, os mais capazes de decidir sobre as prevaricações daqueles que consideravam maus, ficando assente que “fosse o dito Cafre bem açoitado”. Imagina-se que “bem açoitado” era entendido pelos homens da Câmara de Macau não só como uma elevada quantidade de açoites, número que não explicitam, mas também com qualidade, com o requinte exigido por quem tem nas suas mãos a tarefa de proteger a Cidade através de um castigo sofrido no corpo de um homem. Pouca coisa para tão grande missão!
Para que se cumprisse “bem” tal corretivo era, pois, importante que ele fosse aplicado no sítio onde o crime havia sido cometido, o cenário ideal para que a mensagem do «crime e castigo», da «causa e consequência» ficasse gravada na memória de todos os habitantes da Cidade. Depois dos açoites dados, o cafre ficaria “preso até à vinda de seu Amo” porque provavelmente a ausência deste ofereceu ao cafre o magro espaço de liberdade que provou não merecer.
Em Macau, nem todos os crimes eram punidos. Quando os seus autores eram apanhados nas malhas da justiça acreditava-se que o castigo seria sempre modelar. Punições aplicadas com a morte ou com alguns bons açoites que pouco dignificavam a vida dos homens da Cidade, mesmo num tempo em que tudo tinha um significado diferente.
Publicado no jornal Hoje Macau, em 5 de setembro de 2008.
Em Macau… “história sucedida aos socos”
Alfredo Gomes Dias
Os mandarins superiores de Cantão dizem, sobre a história sucedida aos socos em Macau, no presente ano, que resolveram regulá-la para o nobre Senado sobre o modo como se devem portar com os estrangeiros, que vêm de Cantão, a Macau… (Ofício do Procurador do Leal Senado de Macau, 1749).
Macau, 1749.
Por vezes, a História tem histórias destas: uma “história sucedida aos socos” é o suficiente para que os homens do poder façam lei sobre a forma como se devem relacionar as nações. Foi necessário que passassem quase cem anos e uma guerra motivada pelo ópio para que o delta do Rio das Pérolas deixasse de ter o exclusivo do comércio da China com as nações por si rotuladas de “bárbaras”.
Mesmo desconhecendo a sua localização exata no mapa-mundo, todos os povos que não vivessem dentro das fronteiras do Celeste Império ou que a ele não prestassem vassalagem eram considerados fora do espaço civilizado. Uma ironia particularmente irritante para quem, da Europa, talvez pensasse de modo semelhante, embora localizasse o centro de gravidade do mundo num outro ponto do globo. Mas aquele delta, em meados do século XVIII, era a região do vasto Império onde se localizavam as duas cidades que conheciam a convivência dos povos da China com os povos de todos os outros continentes: Macau e Cantão.
Em Macau residiam todos os estrangeiros que, do ocidente, partiam em demanda da China. Nesta cidade viviam e organizavam a sua vida e os seus negócios, ausentando-se por alguns meses quando se instalavam nas feitorias de Cantão. Só os homens iam nessa viagem. As mulheres ficavam. Eles partiam em busca do melhor negócio. Elas ficavam para garantir o seu regresso. Os mandarins não autorizavam que os “bárbaros” fixassem residência noutra cidade que não Macau. Desde 1685 que assim faziam. E assim foi até 1842. Por isso, a Macau aportavam homens e mulheres de muitas origens, animando as suas ruas, praias, portos e mercados. Por isso, Macau se transformou no ponto de encontro de povos e saberes, de produtos e culturas, onde sempre estiveram também presentes os inevitáveis conflitos que preenchiam o seu quotidiano. Nestes conflitos existiam socos e, muitas vezes, uma faca que antecipava a morte de um chinês, português, malaio, timorense, inglês, filipino ou cafre… o destinatário dependia do local, da hora e das circunstâncias do episódio cujas consequências nem sempre se limitaram às vidas dos que nele estiveram diretamente envolvidos.
Um desencontro marcado por socos levou o Mandarim da Casa Branca a alertar o Procurador do Leal Senado para a necessidade de controlar a entrada dos estrangeiros, em particular os que saíam de Cantão para Macau apesar de lá não terem negócio ou família. Cantão, nos meses do ano em que estava aberto ao comércio com os povos de além-mar, era um corredor de entrada na cidade portuguesa de terra chinesa para lá fixarem residência. Aos estrangeiros era exigida uma licença passada pelos mandarins e o Leal Senado de Macau devia avisar “a pessoa desta cidade a quem o estrangeiro veio visitar para que tome a seu cargo, que não suceda alguma história”.
Os socos que percorreram os ares de Macau naquele longínquo ano de 1749 permanecem mergulhados no silêncio de uma História que não dá nome aos que não são reconhecidos pelo poder do governo ou do dinheiro. Desconhecemos os agressores e os agredidos, mas talvez essa ignorância seja hoje secundária quando o mais importante é conhecer as consequências de uma das muitas rixas que frequentemente ocorriam nas ruas da cidade.
Em 1749, uma história sucedeu… e serviu de pretexto ao Mandarim da Casa Branca para mais um exercício da sua influência sobre as autoridades de Macau, regulando comportamentos e anunciando castigos. De novo se tentava afirmar o poder dos mandarins sobre a governação dos portugueses, aproveitando uma ocasião proporcionada por uns socos que alguém deu a outrem, algures na cidade.
Uma história na História de Macau. Uma entre muitas – sem princípio, sem fim e sem rosto – que deram vida à cidade e que merecem ser contadas, simplesmente, porque há muito a aprender com a História da “Cidade do Nome de Deus do Porto de Macau na China”.
Publicado no jornal Hoje Macau, em 27 de maio de 2008.
Em Macau… “e as foi vender a uma barca”
Alfredo Gomes Dias
… tomaram com força da Lorchinha as duas mulheres e as embarcaram na barca tapando-lhes a boca para não se ouvirem os seus gritos… (Ofício do Procurador do Leal Senado de Macau, 1849).
Macau, 1749.
Fevereiro conheceu o desaparecimento de duas mulheres: uma, filha da terra; outra, filha de Timor e da servidão. O abismo social que as separava não impediu que partilhassem a aventura de uma viagem quase sem regresso, deixando-lhes o sabor amargo da traição e da violência.
No centro da história está um chinês de nome Pação, por alguns rotulado de “velhaco” e talvez o autor dum crime que não ficou escondido; para outros, era vítima da intriga das duas mulheres que com ele partiram de livre vontade. De novo se confirma que nem todos os casos que passam pelo banco da justiça, seja qual for a cidade e a época, conhecem a luz da verdade absoluta. Fica apenas, para o futuro, a verdade relativa oferecida pelos diferentes testemunhos. Pação manteve a sua versão: embarcar nunca foi imposto, em nenhum momento. Uma versão narrada aos mandarins que se interessaram pela origem daquelas mulheres e que eles se inclinaram a aceitar porque o tal china tinha levado muitos tratos.
Diferente era a descrição feita pelas duas mulheres, as outras protagonistas desta história: uma, macaense, casada com marido ausente e mãe de três filhos; a outra, timorense, de nome Francisca, uma das muitas cativas que em Macau viviam. Elas afirmavam que ter aceite de boa fé o convite que Pação lhes dirigiu para irem mariscar até à ilha do Bugio, porque o conheciam na cidade como filho da terra. Embarcaram na Praia Grande, numa pequena lorcha, passando a Barra de Macau e saindo mar fora. No entanto, em vez de recolher o marisco do seu sustento, foram transformadas em sustento de quem trafica o corpo e a alma dos que se deixam enredar. Acostaram a uma barca de carvão e Pação subiu a bordo. Pouco tempo depois, três chineses apareceram para as obrigar a com eles seguirem viagem, tapando-lhes a boca para que os seus gritos não fossem ouvidos e, assim, garantir o silêncio aconselhável.
Pação recebeu cinquenta patacas, a medida por ele encontrada como certa para pagar a liberdade das duas mulheres.
A barca de carvão dirigiu-se a Dianbai. As estranhas mulheres, ao desembarcarem, despertaram a atenção dos muitos olhos e ouvidos que policiavam a vila em nome dos mandarins locais. Elas foram de imediato conduzidas a um mandarim… e a outro… e a outro, até chegarem à presença de Zhixian, magistrado do distrito. Uma vez conhecida a sua versão, reforçada pela força do argumento que nada as levaria a abandonar marido, filhos e senhor, foram enviadas de volta à sua cidade de Macau. Mas, depois de ouvida a versão do chinês Pação, as dúvidas ficaram no ar...
Quantas perguntas não podem ser feitas, todas elas sem uma resposta que nos satisfaça?
Os mandarins, desconfiados, inclinaram-se a acreditar em Pação, reclamando o regresso das mulheres, para serem confrontadas com aquele que acusavam de as ter raptado, ou exigindo o seu castigo. Por outro lado, a história contada pelas mulheres teve bom acolhimento junto das autoridades do Leal Senado de Macau e, em particular, do seu procurador. Esta divergência de opiniões em nada ajuda a clarificar o sentido desta história. Pelo contrário, oferece-lhe o nevoeiro que nasce quando os homens do poder dão sinais de administrar uma justiça pouco cega e nada surda quando se trata de defender aqueles que lhes estão mais próximos.
Macaenses, timorenses, chineses… Os personagens deste episódio são uma pequena amostra da diversidade das gentes que povoavam Macau. A esta diversidade correspondeu sempre uma variedade de histórias sem que ninguém tivesse garantido o exclusivo, nem da benignidade, nem da vilanagem.
Num outro mês de um outro ano da História da cidade, novas vítimas e agressores surgiram, heróis e vilãos que fabricaram os enredos do quotidiano de Macau.
Publicado no jornal Hoje Macau, em 3 de junho de 2008.
Em Macau… “foram no primeiro navio para suas terras”
Alfredo Gomes Dias
… estiveram na Cochinchina pregando a Lei de Deus, e que tinham lá levantado algumas Igrejas, os quais conluiados com a gente do navio francês enganaram algumas filhas, dos cochinchinos… (Ofício do Procurador do Leal Senado de Macau, 1750).
Macau, 1750. Outro mês, outro ano, novas histórias se cruzaram em Macau. Em 1749, duas mulheres roubadas, provavelmente já esquecidas. Um ano depois, são novamente mulheres as vítimas de mais uma história da Cidade.
Macau mantinha o seu quotidiano de sempre, com gente e mercadorias a entrar e a sair, nem sempre ao ritmo que os homens de negócio e poder desejavam. Como escreviam os mandarins, “Macau é uma terra Marítima e muito necessária, onde Europeus, e chinas vivem misturados”, uma terra que se desejava “em paz, e descansada”. Convívio, paz e descanso que ficaram em risco com a chegada de um grupo de missionários.
Vinte e sete padres, apelidados pelos mandarins chineses de “bonzos estrangeiros”, chegaram a Macau a bordo de um navio francês de mercadores. Cinco instalaram-se em Macau, distribuindo-se pelas ordens de S. Paulo, S. Domingos e S. Francisco. Seus nomes – Pedro, António, José, Francisco e Matias – pouco nos dizem. Confirmam simplesmente a prática comum de pedirem emprestados os seus nomes religiosos a santos e apóstolos, numa fé que os levava a abdicarem de si, ajudados pelo nome de alguém que acreditavam estar perto de Deus.
Dos outros vinte e dois padres sabemos ainda menos. Missionários anónimos, provavelmente portugueses, espanhóis, italianos, franceses… que um dia partiram das suas terras, algures na Europa, com destino a Macau, “Ou Mun”. Era esta a pequena “Porta da Baía” que a grande China mantinha aberta, por onde entravam homens e mulheres portadores de um passado longínquo, por vezes mais recente, onde se entrelaçam episódios da mais digna glória com outros que embaraçam e envergonham. Por isso, nem todos eram bem vindos!
Desde o século XVI, Macau mantinha-se como ponto de irradiação do cristianismo por terras da Ásia Oriental: China, Japão, Cochinchina… Exatamente da Cochinchina regressaram vinte e sete missionários e as autoridades chinesas apressaram-se a declará-los indesejáveis em nome do convívio, da paz e do descanso de Macau.
No dia 9 de outubro, pela pena dos mandarins, começou o registo de um novo episódio nos anais de Macau. Os vinte e sete missionários transportavam consigo a expulsão da Cochinchina por motivos que justificavam também a recusa da sua permanência em Macau. Estes padres, que naquele Reino levantaram algumas igrejas, em conluio com os homens do navio enganaram algumas filhas de cochinchinos, provocando recontros onde alguns disparos feriram gentes da terra.
O procurador de Macau sublinhava que não devia explicações e que não tinha qualquer responsabilidade sobre o navio francês. Respondia aos ofícios dos mandarins apenas para demonstrar a sua “boa amizade”. Era um silêncio ruidoso.
Para os mandarins, a chegada daqueles missionários era política menos simples, recusando-se a aceitar aquilo que consideravam ser a tentativa de “esconder as suas culpas”. Por isso reutilizavam o mesmo argumento do procurador e, no dia 6 de Novembro, pareciam querer desvalorizar a importância desta história, no gesto cristão de lavar as mãos sobre algo que “como é negócio de Reino estranho não nos importa, nem se dá parte à Corte.” Mas com estes reinos mantinha o Celeste Império fortes relações. Se não, como tinha chegado ao conhecimento dos mandarins a informação sobre a expulsão dos missionários europeus? Por isso, apesar de ter ocorrido em “Reino estranho”, passaria a ser sua preocupação se aqueles padres permanecessem em Macau. Para dissuadir definitivamente o procurador e o Leal Senado, os mandarins anunciaram a sua disposição de solicitar ao Rei da Cochinchina informações detalhadas sobre os missionários e mercadores: “todas as suas culpas, os dias, meses, e anos em que os cometeram”.
Finalmente, o procurador anunciou que os padres vindos da Cochinchina já haviam abandonado Macau. Assim terminou mais uma história que ficou por contar. Por entre a paz e o convívio necessários à Cidade perderam-se no tempo as ações de missionários e mercadores, as feridas das mulheres abusadas e as marcas dos homens despeitados em terras do Reino da Cochinchina. Uma história que chegou a Macau a bordo do «S. Luís», um navio francês, e que partiu num outro qualquer navio cujo destino se desconhece.
Publicado no jornal Hoje Macau, em 10 de junho de 2008.
Em Macau… “até que veio a morrer de tal Razão!”
Alfredo Gomes Dias
… o China (que foi morto) abrindo a porta da sua casa a meia noite, e saindo fora para fazer necessidade maior, foi preso pelo soldado António Dias… (Chapa do Mandarim do Distrito de Xianshan, 1768)
Macau, 1768.
No mês de Maio a história correu pela Cidade. Talvez tivesse sido tema de conversa nas ruas estreitas e nos becos, nas muitas boticas espalhadas pela Cidade e no Bazar. Disso não há notícia, mas nada nos impede de imaginar que a morte de um homem esteja na boca de um pequeno mundo como Macau em meados do século XVIII. Sabemos que a história andou pelos corredores e salões do poder, senão antes, a partir da reclamação do mandarim do distrito de Xianshan que, no dia 9, exigiu que se fizesse a justiça devida pela morte de um chinês às mãos de dois soldados de quem apenas se conhecem os nomes, António Dias Caldeira e José Francisco.
A ordem era há muito conhecida, a proibição de circular nas ruas da Cidade durante a noite. Dela se esqueceu um chinês que, no respeito mais elementar pela natureza humana, abriu a porta da sua casa a fim de satisfazer uma “necessidade maior”. Mas, neste caso, a ordem natural das coisas contrariou a ordem prescrita pelos homens: a proibição de sair à rua durante a noite seria para cumprir, mesmo quando se impunha satisfazer uma “necessidade maior”. Mas se é fácil controlar a vontade exterior dos homens, mais difícil é, para cada um, mandar na sua vontade interior, ditada pela natureza do seu corpo. Vontades comuns a todos os homens e mulheres, chineses e portugueses, cristãos e budistas, lembrando que na riqueza da diversidade humana existe uma natureza que oferece as suas semelhanças. Como a “necessidade maior” de cada um não escolhe a hora de se manifestar conforme as regras de funcionamento da Cidade, aquele chinês em Macau foi apanhado nas malhas da mais rigorosa justiça, cumprida pelas mãos dos soldados que por ali passaram numa das rondas que vigiavam a noite da Cidade. Por isso foi preso, por isso lhe deram pancada, por isso morreu. Mas, para António Dias Caldeira e José Francisco, aquela “necessidade maior” era roubar. As pancadas e a morte caíram sobre o chinês porque este foi apanhado pela ronda e fugiu, resistindo à prisão.
Quando uma ocorrência como esta chega ao supremo conhecimento do mandarim de Cantão, a resposta surge rápida, envolta num mar de dúvidas e de interrogações que, mesmo sem resposta imediata mas apenas pelas consequências do ato, justificam a reclamação da justiça e a entrega dos responsáveis às mãos das autoridades judiciais de Cantão. “Macau é uma cidade em que vivem misturados os Chinas com os Cristãos, e por ventura porque o dito China somente porque saiu fora a fazer a sua necessidade pode o dito António Dias dizer que o tal China quebrara a ordem de sair fora de horas e por isso não mais havia de dar pancadas até que veio a morrer de tal Razão! Nem tal se pode capacitar?” Por vezes, não há declaração mais firme do que uma pergunta.
A persistência dos mandarins obrigou o Senado da Cidade a nomear um responsável por aquela morte, mandarins que não foram sensíveis aos quatro mil táeis oferecidos em troca do esquecimento. António ou José, um tinha de ser sacrificado. Quando faltam as certezas ou a culpa é partilhada, sobra a sorte (ou a falta dela) para ajudar na escolha. A má-sorte recaiu sobre António Dias Caldeira, o qual acabou por confessar o bofetão e o murro dado ao chinês que lhe provocaram a morte. Confissão assinada, os mandarins exigiram de imediato a sua entregue para ser executado. No entanto, os mandarins subordinados do “Filho do Céu” ainda não estavam saciados, como se uma morte despertasse sempre uma nova vontade de matar. Ameaçaram com a ida a Macau porque foram cinco, diziam, os envolvidos naquele incidente. A resposta do Senado surgiu em tom de súplica, pedindo o seu perdão e sugerindo que cumprissem degredo nas terras de Timor.
Ao longo da História – de Povos e Nações, Cidades e Impérios – surgiram figuras que hoje são conhecidas pelas suas tiranias e vilezas, grandes homens de baixas políticas que ofenderam direitos básicos de seres humanos que apenas reclamavam pelo simples direito de existirem. Mas quantas tiranias e vilezas não se cometeram todos os dias, por pequenos homens que aspiravam à alta política, transformando uma norma ou simples regra numa lei quase divina que justificou a morte de alguém?
Publicado no jornal Hoje Macau, em 13 de junho de 2008.
Em Macau… “parece que tem o coração como de seta”
Alfredo Gomes Dias
… uns principais que pretendiam contrariar o gosto do Imperador, como sucede na venda do tabaco, e sabendo que se compra o tabaco para o serviço do Imperador… (Chapa do Mandarim do Distrito de Xianshan, 1768)
Macau, 1768.
O comércio e o poder sempre se cruzaram na Cidade, numa aliança quase perfeita, quase permanente e imutável. De tal modo que nos arriscamos a perder a capacidade de reconhecer qual deles esteve na origem do outro, ou se foram duas almas gémeas que nasceram para se entenderem enquanto insuflavam vida ao porto, ao bazar e às boticas de Macau.
Porém, momentos havia que testemunhavam o desencontro do poder com a livre atividade dos mercadores, os que exportavam sedas e pratas e importavam riqueza sob a forma de tabaco e ópio. Se recuarmos ao início do século XVII, vamos encontrar habitantes da Formosa a inventarem uma nova mistura pensando na prosperidade dos seus negócios, ópio e tabaco, a fórmula que permitia aumentar o desejo do consumo e matar a sede do lucro. O consumo de tabaco espalhou-se por Guangdong e Fujian, como uma pequena chama em palha seca, e o poder assustou-se. Como sempre acontece nestas ocasiões, quando o poder se sente ameaçado pelo comércio, a proibição surge como a receita milagrosa.
Mas as interdições são geradoras de alternativas, algumas, por vezes, ainda mais assustadoras. Por isso, há quem afirme que a proibição do consumo de tabaco, decretada pelo imperador Sizong (1626-1645), provocou o crescimento do consumo de ópio… e dos lucros do comércio. E o grande mal do passado transformou-se no mal menor do presente, pelo que se restaurou a liberdade de vender, comprar e consumir o tabaco. Mesmo quando, aparente e momentaneamente, o poder e o comércio se desencontram, acabam por descobrir formas de se ajudar mutuamente e o confronto dá lugar, de novo, à convergência.
Quando, no primeiro dia de Agosto de 1768, o mandarim do distrito de Xianshan e o hopu de Cantão solicitaram a Macau o fornecimento dos habituais 300 arráteis de tabaco, para cada um, não foi de admirar o envio de duzentos e oitenta e quatro arráteis, a fim de começar a satisfazer as necessidades dos mandarins que, no seu próprio dizer, mais não eram do que as necessidades do seu imperador. O tabaco foi enviado, mas com um preço a pagar mais elevado do que anteriormente.
Agora, quando a aliança entre o comércio e o poder parecia capaz de aproximar a vontade dos mandarins aos interesses dos comerciantes de Macau, foi ameaçada com acusações de avidez dirigidas aos mercadores da Cidade: “… e em lugar de mostrar o povo de Macau agradecido ao Imperador, parece que tem o coração como de seta, buscando ganância sobre este pouco que oferece ao serviço do Imperador.” Uma ganância intolerável, ainda mais grave porque os mercadores sabiam que a venda de tabaco “é para Serviço do Imperador” e, mesmo assim, “quer levantar o preço”.
A linha que separava mandarins e mercadores, hopus e vereadores de um Senado, sempre leal à arte de preservar comércio e lucros, era quase impercetível. Por isso, não nos é difícil compreender que este Leal Senado estivesse recetivo aos argumentos mandarínicos que lembravam a tolerância do Império em relação à presença portuguesa na Cidade. Uma presença que se mantinha há mais de duzentos anos, “com generosidade e comiseração”, beneficiando de regalias na prática das suas atividades mercantis e pagando um aluguer de quatrocentos ou quinhentos táeis. Sensível ao lucro ou à “generosidade” imperial, ou a ambos, o Leal Senado decidiu manter o antigo preço do tabaco e evitar que os interesses do comércio ameaçassem o bom entendimento entre os que exerciam o poder na Cidade. Um gesto, quiçá, também ele generoso, evidenciado com a decisão tomada, no dia 10 de setembro, de cobrir a diferença que os mandarins se recusaram pagar.
Garantiu-se o comércio, mantiveram-se os lucros, preservaram-se as cadeiras do poder e salvou-se a face dos mandarins que puderam, então, substituir o discurso da generosidade imperial por palavras de aviso: “… de hoje em diante devem agradar ao Imperador com grande cuidado, e não façam como cada um quer, e não busquem trabalhos e Lágrimas para si.”
Mercadores, senadores e mandarins evitaram “trabalhos” escusados em nome do bom convívio entre o comércio e o poder. Resta-nos adivinhar para quem ficaram as “Lágrimas”…
Publicado no jornal Hoje Macau, em 20 de junho de 2008.
Em Macau… “recebiam os seus réus o castigo”
Alfredo Gomes Dias
… um China chamado ‘Chin Eo Chisien’ se embebedou, e encontrando-se com um Europeu chamado Anselmo jogaram punhaladas, por isso o Europeu feriu o China com uma pequena faca de que morreu… (Chapa do Zongdu de Cantão, 1768).
Macau, 1768/1743.
Em 1768 ficou a conhecer-se uma história ocorrida em 1743, o ano em que Cosme Damião Pereira Pinto reocupou a cadeira do governo de Macau. Nela permaneceu durante quatro anos.
No dia 3 de Dezembro, na Travessa do Tronco Velho, o vinho que circulava na Cidade ajudou ao nascimento de mais uma rixa. Já embriagado, um chinês chamado ‘Chin Eo Chisien’ procurou alguém com quem trocar provocações, daquelas que nunca se sabe como começam, nem como avança a primeira palavra desacertada. Provavelmente, não imaginou que poderia encontrar Anselmo e a morte. Lançaram-se palavras, esgrimiram-se desafios e jogaram-se punhaladas. Uma pequena faca surgiu nas mãos do europeu Anselmo e acabou por ir em busca do corpo daquele chinês, provavelmente já fora da razão de si, com certeza já fora da vida quando a rixa terminou.
Cerca de uma semana depois, dia 12 de dezembro, António Pereira, o marido da cozinheira do governador Pereira Pinto, matou Alberto Coelho, um homem solteiro. Não sabemos ao certo se a morte ocorreu em casa do assassino ou da vítima, mas a notícia deixou no ar a hipótese de, neste caso, ter sido um amor traído a causa de mais um crime na Cidade.
No dia 6, a Cidade alvoroçou-se com a entrada do mandarim acompanhado pelos seus soldados para inspecionar o corpo de ‘Chin Eo Chisien’, o chinês assassinado. A observação foi realizada e também foi confirmado que a pequena faca de Anselmo visitou o corpo da sua vítima por cinco vezes. Morte confessada pelo agressor, o qual terá explicado “como tinha sido a bulha”. Era o resultado esperado. O mandarim retirou-se e, como sempre acontecia neste casos, reclamou que se fizesse justiça e que o assassino lhe fosse entregue. Anselmo não foi entregue aos mandarins, mas foi executado na ponta de uma corda, às ordens da justiça europeia, a mando do Procurador de Macau que “castigara com uma corda ao Réu Anselmo em presença dos parentes do morto Chin Eo Chisien”.
Quanto a António Pereira, a justiça foi à sua procura. O governador tentou defendê-lo. Talvez querendo proteger a sua cozinheira. Talvez acreditando na sua inocência. Talvez reconhecendo razão no seu ato. A justiça não o encontrou e a cozinheira ficou sem marido, apenas porque António Pereira desapareceu de Macau.
Anselmo e António foram os protagonistas de dois crimes cometidos na mesma cidade. Anselmo era europeu, talvez português do reino. António era filho de Macau. A vítima de Anselmo era um chinês. A vítima de António era, possivelmente, um português ou, quem sabe, um outro filho da terra. Chineses, macaenses, portugueses: os homens e as mulheres que davam vida às ruas de Macau, e que lhes ofereciam também a morte. Tal como lembrava o mandarim “Em o lugar de Macau vivem os Chinas misturados com os Europeus…” Uma “mistura” que ocorria apenas nalguns espaços difusos que testemunhavam o comércio e o amor, a briga e o convívio das boticas.
Nada disto ajuda a compreender o que separava Anselmo e António, nem explica porque é que um foi ao encontro do seu destino numa forca montada pela justiça europeia, e o outro conheceu os favores do governador e os caminhos da fuga para a vida. Anselmo teve de enfrentar a vontade dos mandarins para que a justiça fechasse as contas que foram abertas pelo seu punhal no corpo de ‘Chin Eo Chisien’. António teve os favores de uma justiça tardia, ineficaz, e de um governador que, por uma qualquer razão que hoje não nos é possível conhecer, tentou desculpar o castigo a quem roubou a vida de alguém.
Uma cidade, dois homens, dois crimes e dois destinos. Quantas justiças?
Publicado no jornal Hoje Macau, em 26 de junho de 2008.
Em Macau… “sem Licença, ou por caminho escondido”
Alfredo Gomes Dias
… representou o dito que ele se achava muito doente como na verdade está, e que a sua gente se acha padecendo de fome, que não são capazes de trabalhar… (Ofício do Procurador do Leal Senado de Macau, 1773).
Macau, 1773.
Pelo mês de agosto, um navio francês aportou a Macau, empurrado por uma tempestade. Esta era a versão do seu capitão que, nos anais da Cidade, surge com o nome de ‘Cany’.
Em Macau cruzavam-se caminhos de mercadores, missionários, piratas, fidalgos e aventureiros de variadas latitudes e longitudes. Caminhos longos, para os que saíam de suas casas na Europa; outros, mais curtos, para os que partiam da Índia, Malaca…; depois, encontramos as diversas rotas entre a China e o mundo insular do extenso anel que separava o Índico do Pacífico. Mas o caminho mais próximo e, também, o mais frequentado era aquele que ligava a Cidade ao porto de Cantão.
Macau e Cantão encontravam-se unidos por um fluxo sazonal de gente que frequentava as suas feitorias. Pessoas que eram sempre obrigadas a regressar a Macau, onde tinham residência permanente e, alguns, poucos, a sua família. A pequena península era, assim, escala de muitas viagens que iam em busca de outros destinos, mas também era a origem de quem tentava aproveitar ventos favoráveis que os levasse a Timor, a Manila e, principalmente, a Cantão.
Para além das vantagens, permanentes ou temporárias, que o porto de Macau oferecia a todos os que viajavam naquela parte do mundo, ele foi sempre um local de refúgio para quem, por uma qualquer razão, precisava de auxílio. A tempestade, para além de levar ‘Cany’ a Macau, deu ao capitão a enfermidade de que padecia e que o obrigou a pedir guarida a um conterrâneo que residia na Cidade, o francês ‘Patipy’.
As alfândegas de Macau e de Cantão eram controladas pelos hopus, sempre de vigia a todos os homens e mercadorias que entravam e saíam daqueles dois portos vizinhos. Ao terem conhecimento da chegada de ‘Cany’ a Macau, apressaram-se a exigir a sua expulsão: devia regressar ao seu navio e, depois, ao seu país. Diligentemente, o procurador do Senado quis cumprir o papel que lhe foi reservado na vida de ‘Cany’ e da Cidade, mas para além de se confrontar com a doença do capitão francês, deparou-se também com uma tripulação com fome e incapaz de trabalhar.
A saída da Cidade parecia agora impossível de concretizar, não pelo interesse de um bom negócio prestes a concretizar-se, mas pela simples necessidade de sobrevivência. Os homens de um navio que navegava sob o pavilhão de uma poderosa nação europeia estavam agora reduzidos à mais pequena dimensão humana, de quem se vê obrigado a vender a fonte do seu sustento: “… e no caso que haja, quem queira comprar o seu Navio, ele o venderia tão-somente para remédios a fazer necessidade…” A ‘Cany’ restava-lhe apenas a esperança de recuperar a saúde perdida e a chegada de um “Navio de sua Nação para ser Remetido para a sua Pátria.”
O procurador afirmou a impossibilidade de executar a ordem de expulsão do capitão francês. A resposta dos mandarins desviou o centro desta história de ‘Cany’ para a Cidade: ele partiu de Macau, e chegou a Cantão, sem a licença nem o aviso que lhe eram exigidos. O navio, a tripulação e o capitão “vieram escondidos” até Cantão e, deste porto, foram remetidos para Macau. Para os mandarins, competia à Cidade tomar providências e ter “mais cautela no seu governo para que não suceda outra semelhante.”
‘Cany’ e o seu navio foram protagonistas de uma aventura, como muitas que sucederam, à revelia dos poderes que governavam as terras banhadas por aqueles mares. Aventureiros que partiram com o sonho da fortuna, a caminho de um Oriente que julgavam ser a terra de todas as riquezas e prazeres, e que regressavam com menos do que tinham quando partiram. Aventureiros obrigados a vender os escassos anéis que possuíam para salvar os dedos massacrados pelo sal que temperava os cabos das suas embarcações. Enfim, aventureiros que, “sem Licença, ou por caminho escondido”, trocaram a busca da riqueza pela vontade de sobreviver, num refúgio encontrado no porto de Macau.
Publicado no jornal Hoje Macau, em 4 de julho de 2008.
Em Macau… “não ouçam os enganos dos três Chinas”
Alfredo Gomes Dias
… levando fazenda para essa Cidade fugindo de Direitos, a saber Anfião, muito enganando aos Cristãos assim os chinas de fora como os de Macau… (Ofício do Mandarim da Casa Branca, 1778).
Macau, 1778.
Qualquer cidade, ao longo da sua existência, conhece inúmeras histórias que muitas vezes pairam, incertas, entre a realidade e a ilusão. Como os três chineses que foram apanhados numa embarcação, no mês de fevereiro, a transportar algumas caixas de ópio. O ópio ou anfião (o nome de origem árabe que o ajudou a espalhar-se pelo mundo) era uma substância cada vez mais apreciada e consumida no litoral do sul da China, nestes anos que se aproximavam do fim do século XVIII.
Entre a Índia e Macau, muitas eram as embarcações que se dedicavam ao comércio, com o porto da Cidade a ver chegar o incenso e o pau-vermelho, a pimenta e o sal, o sândalo e o anfião. A tentação das autoridades chinesas foi, desde logo, proibir o tráfico com origem em Patna e Benares, na Índia de Warren Hastings, o governador britânico que, a partir de 1773, soube promover a cultura da papoila e a fabricação do ópio. Mas os éditos imperiais nunca foram suficientes para inibir os homens, de todas as condições e de muitas origens, a envolverem-se num negócio cujo lucro, no dia seguinte, era sempre superior ao do dia anterior.
A realidade da intervenção dos sempre atentos mandarins, mandando prender os três chineses, permanecia sobre as águas e as ruas estreitas de Macau, principalmente nas suas praias. A praia Manduco era uma das mais procuradas pelos que queriam desembarcar, “fora de horas de noite”, o ópio que ingleses, americanos, portugueses… transportavam das Índias para a China imperial. Uma actividade lucrativa que envolvia os pequenos e os grandes da Cidade: os moços e os vagabundos, “causando estes várias perturbações, perturbando aquele lugar, por cuja causa sucede roubamento, e pancadas”; e os cristãos com nome, como António José da Costa, António Rodrigues ou “Simão pequeno” alguns dos homens apontados como os guardiães da droga, todos eles ricos comerciantes e senadores de Macau. A realidade estava, ainda, na voz da justiça dos mandarins que ordenaram de imediato ao Procurador e restantes senadores que mandassem “queimar o dito anfião”.
A ilusão, no outro lado desta história, acompanhou a ordem dos mandarins, quando trocaram a tradicional veemência verbal pelo singular conselho preventivo dirigido aos grandes da Cidade “para que não ouçam os enganos dos três Chinas”, e quando substituíram a sua habitual acção punitiva pelo nobre gesto solidário de mandar prender os chineses para que, deste modo, pudessem “evitar muito mal aos cristãos”. Os três chineses são apanhados na ilusão da impunidade, pensando que servir os grandes fazia deles pequenos maiores; os cristãos com nome gozavam do privilégio de verem os seus negócios dissimulados pelo manto diáfano de uma inocência que não existia; os mandarins quiseram acreditar, ilusoriamente, que os cristãos podiam ser enganados por três chineses e esconder, por um qualquer equívoco, o anfião gerador de sonhos.
Entre a realidade crua de um ópio que provocava a miséria de muitos, a troco da riqueza de alguns, e a ilusão lançada pelos que administravam a Cidade para que os seus homens-bons “possam evitar de penas”, fica a certeza de que o anfião oferecia a quem o consumia, a felicidade possível ao suspender a sua existência. Mas também podemos ser levados a acreditar nas palavras de quem, como Thomas de Quincey em 1821, teve a ousadia de confessar que “o opiómano sente que a parte mais divina da sua natureza é a que se impõe; ou seja, os seus sentimentos morais conhecem uma serenidade sem névoa; e, acima de tudo, brilha com a luz viva da inteligência majestosa”. Assim, talvez os efeitos do ópio estendessem a natureza divina, os sentimentos morais e a inteligência, não só a quem o consumia, mas também aos que governavam.
Publicado no jornal Hoje Macau, em 11 de julho de 2008.
Em Macau… “devem reconhecer a nós como Protectores da Cidade”
Alfredo Gomes Dias
… então dão parte ao Imperador, de quem esperam as ordens, e conforme o seu mandado, é o réu então condenado à morte… (Chapa do Mandarim de Xiangshan, 1788).
Macau, 1787.
No final do ano de 1787, a Cidade conheceu mais um conflito entre dois dos seus homens. José e Jacem, por motivos que por enquanto desconhecemos, trocaram palavras e agressões. Um foi ferido e morreu. O outro foi preso e remetido aos mandarins.
José, nome que confirma tratar-se de um cristão, provavelmente filho da terra, era marinheiro de uma das numeradas embarcações de Macau. No barco 17 ganhava a sua vida, um número mais de azar que de sorte, porque não foi capaz de o proteger da morte. Para além do seu nome, Jacem, nada mais se sabe deste chinês que, provocador ou provocado, foi acusado de ser o “matador do Marinheiro José”. Dois homens que se cruzaram entre a terra e o mar de Macau, naquela linha impercetível que unia e separava os destinos daqueles que viviam na Cidade e dos que a visitavam. Universos humanos distintos que se encontravam e desencontravam nas praias, ruas e becos, proporcionando-lhes um mosaico cultural a todas as horas diferente.
Jacem, identificado como o assassino de José, foi preso pelas autoridades de Macau e entregue aos mandarins que iniciaram o processo de investigação, julgamento e execução do castigo. Uma longa marcha que, em Fevereiro de 1788, fazia temer aos “Procuradores do mesmo morto” que o caso caísse no esquecimento. Aguardava-se o envio de Jacem para Cantão, mas este ia sendo adiado, dia a dia, semana a semana, de Macau para Xiangshan, de Xiangshan para Cantão, de Cantão para a corte celestial e, “quando vier a resolução, há-de o réu padecer.”
Este longo caminho a percorrer no espaço e no tempo em que Macau vivia o seu quotidiano e esta espera geradora de suspeitas levaram a que senadores, ouvidor e governador, todos pela voz e pena do procurador, insistissem na “execução pronta” do castigo esperado para o autor daquele crime. Uma insistência acompanhada da velha lei de “olho por olho, dente por dente”… morte por morte. Se, nos casos em que os infratores eram europeus, a pressão dos mandarins era constante e, sabemo-lo, geralmente eficaz, neste crime da autoria de um chinês pedia-se a mesma celeridade que para os outros era exigida. Uma obrigação e um sentido de equidade que se esperava aos que se apresentavam como “Protetores da Cidade”. E uma ténue ameaça ficava suspensa nos arquivos do Senado e nos ares de Macau: “Esta Chapa e a memória deste caso fica guardado no cartório do Senado, para a todo o tempo nos servir de Governo, e exemplo, em caso de contestação.”
Em resposta a esta ameaça tão pouco intimidadora, o mandarim de Xiangshan retomou a ideia de que era preciso esperar pela decisão dos seus superiores, devendo as autoridades da Cidade permanecer sossegadas e não ceder à fácil tentação de continuar a insistir na execução de Jacem. Aguardai, senhores… “sem mais nos molestares com as vossas constâncias, e assim o ordeno.” A ordem de silêncio era assim afirmada, talvez para garantir que esse mesmo silêncio desse o seu contributo ao esquecimento. Senadores em silêncio, mandarins em esquecimento, e Jacem?... em liberdade?
Porém, para os mandarins, as dúvidas sobre a culpa de Jacem mantinham-se a pairar sobre o processo de inquirição que iam realizando. Não haveria condenação sem que se desvanecessem todas as interrogações que pudessem ainda subsistir, mas caso a culpa fosse confirmada pelo Imperador “e conforme o seu mandado, é o réu então condenado à morte”. Uma instrução que o “Filho do Céu” enviaria aos seus mandarins, obrigada a percorrer um tempo que desesperava os filhos da terra, e que em Agosto de 1788 ainda não tinha chegado.
Depois da morte de José, Macau ficou aguardando pela morte de Jacem. Uma espera que se foi prolongando no tempo até que nele se perdeu, deixando de ser notícia na correspondência entre os senadores e os mandarins. Mais uma vez a provar que sempre foi mais rápido tirar a vida a alguém do que oferecer a justiça à Cidade.
Publicado no jornal Hoje Macau, em 8 de agosto de 2008.
Em Macau… “Amigo da boa razão da qual todo o sábio se convence”
Alfredo Gomes Dias
… o que dizemos é, que no bazar-novo, e no Patane, há casas e boticas em terreno pertencente a esta Cidade, e que impede a saída da porta que todos se devem demolir… (Ofício do Leal Senado de Macau, 1788).
Macau, 1788.
Todos o afirmam e nós confirmamos: 1787 e 1788 foram anos de fome em Macau. O arroz era um bem alimentar tão apreciado quanto escasso. A sua falta era uma realidade em toda a província de Guangdong afetando, como sempre, aqueles que menos tinham. O Leal Senado, preocupado com a fome que se fazia sentir, adquiriu 1200 picos de arroz que pôs à venda na Cidade. Mas, nestes mesmos anos, propôs-se afirmar a sua jurisdição sobre a população chinesa, tentando impor regras à forma desordenada como a Cidade se expandia. O desalinho das novas ruas de Mong-há e Patane transformou-se numa desordem provocada pelas gentes que viviam nas velhas ruas da Cidade.
A escassez de arroz assumiu uma maior gravidade com o aumento do número de chineses que escolhiam a urbe para construir as suas magras vidas. Segundo os cálculos possíveis feitos num tempo de contas incertas, a população de Macau passou de 20 mil chineses em 1872 para 30 mil em 1788, números demasiado redondos para serem rigorosos, mas elucidativos sobre a crescente presença chinesa na Cidade, enquanto a população europeia se mantinha estável nas 6 mil almas contabilizadas.
Os chineses que viviam em Mong-há e Patane procuravam novas soluções para a sua velha vida, como um chinês que construiu um muro “para lhe servir de parede a uma casa, que fizera entre duas paredes, que se devia demolir, como também uma Botica grande que lhe está defronte feita de novo, e outras muitas Boticas, e Barracas, de que se vai formando uma nova povoação.” Alargavam-se as pequenas aldeias chinesas, anunciando os novos limites da Cidade, para além da Porta de Stº António, os quais se acabaram por se fixar na Porta do Cerco.
A mando do Senado, o procurador Filipe Lourenço de Matos procedeu à demolição das novas casas e à expulsão de mais de cem chineses, muitos deles sob o argumento de que os “Chinas vadios e ladrões cada vez são mais nesta Cidade” como os que puseram fogo à porta da igreja de S. Domingos com a intenção de roubar.
A reação ultrapassou todas as expectativas, pois as consequências foram de tal monta que dificilmente o Senado voltaria a mandar executar a mesma ordem. Os moradores do Bazar fecharam as suas lojas. Muitos chineses organizaram-se em grupos, batendo em escravos, maltratando os soldados que faziam as suas rondas e assaltando casas. Até a casa de um arménio que vivia na Praia Pequena e que, no momento da ameaça, recebia a visita do governador e de alguns dos melhores homens-bons da Cidade. Nem o poder escapava à fúria de uma população com fome e expulsa da terra onde queria viver.
A reação dos chineses de Macau foi acompanhada pelas autoridades mandarínicas. Vindo de Xiangshan, o mandarim entrou na Cidade e dirigiu-se ao Senado para pedir satisfações. Encontrou a sua porta de honra fechada e sem a cortina vermelha que simbolizava a dignidade com que seria sempre recebido. Procurou, então, a casa do ouvidor Lázaro da Silva Ferreira que, no calor da afirmação dos direitos do Senado sobre as terras e aldeias chinesas que viviam à sombra da Cidade, deu um murro na mesa e, com tal gesto, agraciou o mandarim com um insulto. Sem honra nem dignidade, o mandarim abandonou Macau apressadamente. Ao insulto e à porta fechada do Senado, respondeu o mandarim com o fecho da Porta do Cerco. À fome de arroz juntou-se a escassez de outros víveres.
Fechada a Cidade, cercada pela fome, foi o Senado obrigado a negociar com os mandarins, o ouvidor impedido de dialogar com as autoridades sínicas e o procurador demitido por aqueles que lhe deram a ordem que ele zelosamente cumpriu. Abertas as portas da Cidade, nasceu um novo Bazar, naquele ano de 1788, às custas do Leal Senado e a troco da esperança que os mandarins cumprissem a promessa de em Macau, “cheia de Chinas vadios, e ladrões”, ficarem “somente os bons, e que são úteis”.
Todos o afirmam e nós confirmamos: 1787 e 1788 foram anos de fome em Macau.
Publicado no jornal Hoje Macau, em 18 de julho de 2008.
Em Macau… “deram-lhe muitas pancadas de que foi ferido”
Alfredo Gomes Dias
… Os tais ladrões vão remetidos junto com esta Chapa ao cabeça de rua, para entregar ao Sr. Mandarim, para que sejam rigorosamente castigados… (Ofício do Leal Senado de Macau, 1788).
Macau, 1788.
A mando do Senado, o procurador Filipe Lourenço de Matos procedeu à demolição das novas casas e à expulsão de mais de cem chineses, muitos deles sob o argumento de que os “Chinas vadios e ladrões cada vez são mais nesta Cidade” como os que puseram fogo à porta da igreja de S. Domingos com a intenção de roubar. A reação dos chineses, povo e mandarins, levou ao isolamento de Macau e o procurador foi demitido por aqueles que lhe deram a ordem que ele zelosamente cumpriu.
O final desta história é o início de uma outra, com o mesmo protagonista, o agora ex-procurador Filipe Lourenço de Matos, um reinol com origens escalabitanas.
André Lourenço de Matos nasceu em Santarém, num ano que se desconhece e no lugar que lhe deu o último apelido. Em Lisboa casou com Maria de Santa Ana com quem teve dois filhos, Filipe e José, ambos batizados na capital do Reino, em Santos-o-Velho, o primeiro em 1744 e, José, o mais novo, em 1746. Os dois irmãos mantiveram os seus destinos unidos em Macau onde um dia desembarcaram. Filipe confundiu-se com os grandes da Cidade, acabando por desempenhar as funções de procurador do Leal Senado. José continuou à procura de outros destinos e, embora Macau fosse para sempre a sua Cidade, acabou por morrer na Cochinchina. Os dois deram início a uma nova família macaense que, duzentos anos depois, pode ser encontrada em Wisconsin, Londres, Hong Kong e S. Francisco.
Provavelmente, no dia 29 de Julho, Filipe Lourenço de Matos aventurou-se “fora da porta de Stº António com outro morador que tem servido já no Senado para tomar fresco”. Por retaliação às suas ações, praticadas no tempo em que era procurador, ou pela simples vontade de roubar, Lourenço de Matos foi a vítima escolhida por um grupo de chineses que “deram-lhes muitas pancadas de que foi ferido, e furtaram um relógio, um pé de fivela, e mais uma rota de gastão de ouro”.
Encontrados os assaltantes – Guoc-Anham, Loc-Assem, Chum-Ayan, Cheoc-Achom, Chichem – foram remetidos aos mandarins para serem “rigorosamente castigados”, exigindo-se que o “castigo deve ser igual à gravidade da culpa, por ser feita de propósito, a um homem público, que governou aos mesmos Chinas”. Não se podia exigir menos, estando em causa a vida e a dignidade de um reinol que pertencia aos grandes da Cidade, mas não suficientemente grande para fugir às linhas cruzadas que a vida colocou no seu caminho. Lourenço de Matos, um homem de reino distante, fixou-se em Macau, numa Cidade que se revelou pequena, quando o obrigou a confrontar-se com o pragmatismo dos que governavam e com a vingança dos que eram governados.
O ex-procurador sentiu, na alma e no corpo, as penas a que foi condenado pela pequenez da Cidade porque se limitou a acatar uma ordem dada pelos seus superiores. Na alma, Lourenço de Matos terá experimentado a ingratidão dos que facilmente sacrificavam os princípios aos interesses que a realidade impunha. No corpo sentiu a vingança dos chineses “vadios e ladrões” que ele havia tentado expulsar num passado recente.
Demitido por uns, espancado por outros, Lourenço de Matos foi uma das muitas vítimas da Cidade, porque as circunstâncias da sua vida o levaram a viajar de Lisboa para Macau, colocando-o no tempo e local errados para desempenhar uma missão condenada, desde o início, ao fracasso.
A Filipe Lourenço de Matos foi impossível travar o conveniente entendimento dos diferentes governantes da Cidade e impedir o crescimento das suas ruas, cada vez mais povoadas de chineses atraídos por aquela pequena península, muito diferente do vasto Império a que pertencia. Mas, nesse escasso território, foi capaz de fundar uma nova família de macaenses que, como muitas outras, sentiram ser Macau uma Cidade demasiado pequena, dispersando-se por um mundo mais à sua medida.
Publicado no jornal Hoje Macau, em 1 de agosto de 2008.
Em Macau… “faça todo o exame para saber quem são os matadores”
Alfredo Gomes Dias
… mataram atraiçoadamente a um deles por nome José Lopes por se acharem descuidados, e deitados, e os atiraram ao mar, um deles ferido e todos roubados… (Ofício do Leal Senado de Macau, 1788).
Macau, 1788.
A Cidade Cristã de Macau nasceu, em grande medida, atraída pelo comércio de Cantão. Desde meados de quinhentos que os homens de Macau, marinheiros e mercadores, se aventuraram nas viagens até aquela cidade que concentrava no seu porto um forte quinhão do comércio que se realizava no sul da China.
Muitas foram as viagens, muitos foram os caminhos escolhidos para unir as duas cidades, os seus mercadores, os seus produtos, as suas vidas e a morte de alguns dos que ousavam trocar a segurança do presente pela riqueza possuída num futuro que sempre se queria próximo.
No final do mês de julho mais uma destas viagens estava prestes a terminar. Quatro portugueses – Francisco Pereira, João Caetano, Francisco Landes e José Lopes – arriscaram a sua sorte e o seu azar numa viagem de partida certa, mas cuja chegada era sempre uma incógnita. No dia 31, estes quatro homens já estavam em Passaleão, apenas a dois passos da Porta do Cerco. Numa lorcha tripulada por cinco chineses, deixaram para trás mais uma aventura, mais um negócio que, talvez, tivesse rendido o suficiente para garantir o seu sustento nos próximos meses que seriam passados na pequena península de nome santo. O suficiente, também, para despertar a ganância, o roubo e a morte.
Em Passaleão, naquele último dia de julho de 1788, pelas sete horas da tarde, aproveitando um momento de descanso, os cinco chineses decidiram fazer contas com os quatro portugueses. Um destes foi subtraído ao grupo, assassinado e atirado ao mar. José Lopes já não voltaria a ver Macau. Outro companheiro ficou ferido e todos foram despojados da “riqueza” que traziam de Cantão.
Reclamou-se a investigação e o cumprimento da justiça para mais esta morte, desta vez consumada fora das muralhas da Cidade, mas com a dificuldade acrescida de não serem conhecidos os autores do roubo dos quatro portugueses e da morte de um deles.
Os mandarins desde logo responderam, solícitos, a pedir informações detalhadas sobre o caso para poderem actuar em conformidade, e críticos, para com as próprias vítimas que não deviam “tomar caminho de Passaleão, que é caminho de fora”. Relembrava o mandarim as regras desde sempre definidas e que deviam ser respeitadas por todos aqueles que se deslocavam entre as duas cidades: “quando tomar embarcação para ir a Macau devem tomar licença, e despacho do Hopu, qualquer pessoa, e o Hopu depois de ter examinado de tudo então poderia largar”. Entretanto, aguardava informações sobre que armas tinham sido usadas, que artigos foram roubados, qual o nome da lorcha que os transportou e quem era o seu fiador, e onde embarcaram os portugueses. Para disto se ter conhecimento era necessário “chamar estas três pessoas, e examinar com toda a clareza, então poderei mandar prender”.
Apesar destas observações, adequadas na pena de quem tinha responsabilidades no governo da Cidade, o mandarim de Xiangshan disponibilizou-se para “ir a Macau pessoalmente para o dito exame”, quando estivesse concluída a recolha de toda a informação considerada necessária para que as investigações pudessem avançar. Solícito e crítico, o mandarim não poderia fugir ao dever das formalidades que o caso exigia, nem deixaria escapar mais um precioso momento para afirmar a sua imagem de autoridade.
Ficavam os senadores à espera de saber quem eram os assassinos e que a justiça fizesse o seu caminho, conscientes de que esta era a única forma de verificar se estava certa, ou não, a conta de subtração feita pelos cinco chineses aos quatro portugueses. Mas, contas feitas, o saldo nunca deixaria de ser negativo: com a morte de José Lopes, Macau ficaria sempre a perder, sempre mais pobre… mesmo se um dia as contas fossem ajustadas com os cinco chineses da lorcha de Cantão.
Publicado no jornal Hoje Macau, em 22 de agosto de 2008.
Em Macau… “o bazar se acha em um total desarranjo”
Alfredo Gomes Dias
… Portanto, tu que tens entre os teus o primeiro lugar, tu que não podes dirigir pelo caminho recto da justiça aos teus, tu és, o que dás ocasiões a estas perturbações… (Chapa do Mandarim Peng Ke, 1788).
Macau, 1788.
As mudanças que ocorrem numa cidade são, em primeiro lugar, o reflexo da vontade das pessoas que nela vivem. Depois, vem o governante construir edifícios e ruas, praças e avenidas, portos e mercados.
A cidade nasce dentro do seu povo, pela força do seu querer, pela energia que utiliza nos movimentos, gestos, formas de estar e de sentir, que são o centro da sua vida agitada. Depois, surge o confronto com os homens que têm nas suas mãos a capacidade de decidir por todos e que desejam ver a urbe respeitando uma ordem mais ou menos estática, recusando-a como um espaço que se faz e refaz todos os dias pelos homens e mulheres que dela fazem parte.
Para os senadores de Macau, em 1787, o bazar de Macau devia ser deslocado para fora das muralhas, para Patane, o que foi aceite pelas autoridades chinesas. De acordo com o mandarim Peng Ke “certamente para comprazermos com a vossa vontade, e para que as minhas gentes pudessem comodamente comerciar convosco”.
No ano seguinte, outro era o pensar dos governantes portugueses, reclamando pela necessidade do bazar mudar novamente de sítio porque a ordem que se procurou nunca foi encontrada: “o bazar se acha em um total desarranjo, porque alguns Chinas fazem as vendas dos comestíveis em Patane, outros na praia pequena ao pé do Hopu, outros no Bazar grande antigo”.
A localização do bazar da Cidade transformou-se em motivo de confronto entre os desejos de uma cidade ordenada no espaço, pela vontade de quem mandava, e os que transportavam consigo para as ruas e boticas uma prática de comerciar herdada de tempos próximos e distantes. Por isso, para o procurador Miranda e Sousa, não se tratava apenas de reclamar pela necessidade de reorganizar o bazar. Estava também em causa anular hábitos ancestrais que, para uns, eram virtudes e, para outros, eram defeitos a corrigir: deixar de vender nas ruas de passagem onde “nascem todas as desordens”; demolir as casas construídas em Patane “por ser chão dos moradores pertencente à Cidade e junto aos muros dela”; expulsar os novos chineses que chegam a Macau por ser “gente má” recetora de furtos porque nada poderiam ganhar “com dois pedaços de cana-de-açúcar, e quatro bolinholas, que tudo não vale o valor de um maz”; impedir a entrada das mulheres das lorchas que “não fazem caso das ordens do Mandarim”; e acabar de vez com a venda de vinho aos moços dos Cristãos, pago com coisas que roubam nas casas de seus amos, “com que se embebedam e vão armar desordens com os Chinas, e jogar pancadas com eles também não ficam capazes de servir os seus Senhores”.
Para o mandarim Peng Ke tal lista de reclamações não poderia nunca ser atendida porque era “justo e conforme a razão que os Chinas, depois de obterem de nós licença possam armar tabernas, edificar casa, como bem lhes parecer, sem que vós possais impedir, porque o Negócio já está concluído.” Deste modo, a localização do bazar transformou-se num múltiplo confronto entre os diferentes governantes da Cidade, entre governantes e governados, e ainda, entre governados cujas diferentes origens nem sempre concorreram para o lado positivo da vida. Homens e mulheres, chineses e cristãos, homens grandes e gente pequena, que secularmente conviveram em Macau, mas cujo encontro também se fez de muitos desencontros.
O crescimento da Cidade, com muitos a chegar e poucos a partir, obrigou a romper, lentamente, as velhas muralhas, acabando por vir a esbater as dualidades que sempre foram um traço característico de Macau, mas sem que tal signifique o entendimento unânime dos defeitos e virtudes dos diferentes povos que construíam diariamente a Cidade. Tal como Proust entendeu, cem anos depois, quando estava «Em Busca do Tempo Perdido», “na humanidade, a frequência das virtudes idênticas para todos não é menos maravilhosa que a multiplicidade dos defeitos próprios de cada um”.
Publicado no jornal Hoje Macau, em 29 de agosto de 2008.
Em Macau… “que logo desmanchem todas as casinhas”
Alfredo Gomes Dias
… a Cidade manda, que quer pôr duas Bombardas no Patane para que não venha por aí gente má como vieram a noite passada… (Ofício do Procurador do Leal Senado de Macau, 1789).
Macau, 1789.
O sossego da Cidade era conquistado todos os dias.
A paz e a concórdia faziam parte dos dias de Macau. Dificilmente uma sociedade vive em permanente sobressalto e num constante confronto. Quando assim acontece, limita-se a sobreviver numa completa ausência de referências no tempo e no espaço da sua existência. A Cidade vivia, dentro da sua pequenez territorial, inundada pela grandeza humana que a diversidade dos homens e mulheres chegados de outras paragens sempre proporcionam às comunidades que os acolhem. A paz que lhe era possível alcançar numa Ásia Extrema de encontro de civilizações.
Macau, um emaranhado de ruas e becos, um amontoado de casas, boticas e armazéns, espraiava-se pelas águas que a cercavam. Águas onde muitos barcos estendiam amarras a uma presença permanente, servindo de casa aos que escolhiam o mar e o rio como ambiente natural donde retiravam o seu sustento. Outras embarcações limitavam-se a parar por períodos de tempo mais ou menos curtos, o suficiente para fazer algum comércio ou para seguir o destino traçado no porto de partida com a força de quem se reabasteceu. Outras, ainda, aproveitavam o silêncio da noite e a escuridão que se abate sobre a Cidade adormecida para interromper o sossego dos dias e a paz desejada por todos. A estas, Macau tinha para oferecer a sua vigilância de modo a impedir que “não venha para aí gente má” como aconteceu na noite de 27 de julho de 1789.
Enquanto a Europa assistia, em sobressalto, às noites violentas da Revolução que fez desaparecer uma imensa fortaleza chamada Bastilha, em Macau, numa noite como as outras, um grupo de ladrões entrou na casa de António Vicente Rosa, um dos nomes grandes de Macau, a quem roubaram quatrocentas patacas, dois espelhos, chapéus, duas botas, um jogo de fivelas de pedra… A Europa enriqueceu com tão grandioso assalto. Em Macau, ficou o mercador mais pobre e o procurador logo mandou os meirinhos em busca dos autores de tão vil ofensa.
Para evitar a entrada desta gente que visitava Macau, com a intenção de se aproveitar das riquezas que naqueles anos de crise escasseavam, o Leal Senado publicou um edital anunciando que as fortalezas da Cidade passavam a estar de vigilância, “principalmente a da Barra, para não passar Embarcações nenhumas de noite”. Por isso, todos os barcos deviam recolher antes de anoitecer, para não serem confundidos com uma embarcação de ladrões e “em ordem de não suceder alguma desgraça, quando é preciso de fazer algum tiro”.
Este edital, publicado no dia 26 de julho, não foi capaz de evitar o roubo praticado na noite seguinte, na casa do rico mercador. Publicado no dia anterior ao golpe planeado para a casa de Vicente Rosa, acredita-se que os ladrões não tiveram tempo de o conhecer. Mas talvez seja difícil pensar que esse conhecimento alterasse o rumo deste pequeno episódio da História de Macau. O Senado tentou reforçar a vigilância sobre os limites da Cidade. Anunciou a vontade de pôr duas bombardas no Patane e, para que as suas ações protetoras fossem eficazes, reclamou da necessidade de “mandar que logo desmanchem todas as Casinhas que houver para jogar a Artilharia…”
Tentava-se apertar o cerco aos ladrões e os habitantes da Cidade eram apanhados na mesma rede que se afirmava como protetora. Em nome da segurança das gentes de Macau exigia-se a demolição das casas de alguns dos seus habitantes vizinhos, em Patane, ou mesmo na Praia Pequena, “junto da água que impede a ronda da noite, e se juntam nelas muito má gente, e jogadores.”
O desejo de preservar o sossego da Cidade era reprimido pela vontade de alguns assaltarem os seus moradores. Neste antagonismo se jogava a defesa de Macau, mesmo que esta implicasse o prejuízo dos seus próprios habitantes. Salvava-se a Cidade, mas esquecia-se que o mais importante significado da sua existência residia em todos os que nela viviam.
A Cidade mantinha o seu nome de Macau. Anónimo continuava a ser o seu povo.
Publicado no jornal Hoje Macau, em 12 de setembro de 2008.
Em Macau… “o China caiu sobre a faca”
Alfredo Gomes Dias
… porque cada dia se vão descobrindo circunstâncias a benefício do moço, e como se trata da vida de um homem, não há-de ser morto como um animal… (Ofício do Procurador do Leal Senado de Macau, 1790).
Macau, 1789.
Na noite do segundo dia de dezembro Macau não dormiu.
Por vezes, os dias gastos nas atividades que alimentavam a Cidade e os seus habitantes prolongavam-se em noites de bebida, jogo e brigas. Era a festa da noite onde homens e mulheres encontravam momentos para se divertirem e amarem, para discutirem os tempos das suas vidas e, também, para ajustarem contas por saldar. Nessas noites sem sono, escassas eram as razões que despoletavam uma briga na cidade chinesa, de uma religiosidade sem deuses, ou na cidade europeia desde sempre rotulada de cristã. Nem a presença dos deuses, nem tão pouco a sua ausência, impediam que de uma discussão surgisse uma luta que acabava por ferir ou matar um dos envolvidos na contenda.
Entre as dezanove e as vinte horas do dia 2 de dezembro de 1789, a morte encontrou-se com o chinês Ahy. A noite do dia 16 do calendário chinês, “que estava muito clara, as ruas cheias de gente”, era o palco privilegiado para cenas de bulhas e quando estas ocorriam “todo o Povo, acode”. Brigas que, muitas vezes, não se sabia como começavam e deixavam no ar muitas dúvidas sobre quem nelas participou. A certeza estava sempre na morte, quando um corpo ferido tombava algures, numa rua… e o corpo de Ahy caiu “à porta da botica da casa da Cidade” ou, segundo outros, “junto às Boticas da Prainha”.
As dúvidas, quando se acumulam, incentivam a procura da verdade, averiguando quando, quem e como ocorreu mais uma briga que acabou na morte de um chinês de Macau. Na busca da verdade possível, reconheceu-se que Ahy e um amigo, “por estarem muito bêbados”, provavelmente tendo-se deixado levar pela alegria da noite na Prainha, encontraram-se com um moço da Cidade, de nome Sebastião, o qual ia a caminho de casa com mais dois companheiros de escravidão. Estes “lutaram com ele levando-o debaixo de si, e fez então o ferimento, segundo se vê, de que se seguiu a morte”. Ahy e Sebastião, com os seus companheiros, cruzaram os seus destinos no centro da Cidade, travando um confronto que os levou “até perto da Misericórdia”.
Na alegria das noites brancas de Macau, Ahy e Sebastião encontraram-se com a morte, sem que nenhum a tivesse procurado. Talvez fosse verdadeira a ausência de motivos e um desentendimento sem razão fosse a razão do desentendimento. Por isso se pediu benevolência para com aquele que matou quando, simplesmente, se queria proteger, naquele que era “o Ano octogésimo do Imperador, e Ano de perdão”, tal como escreveu o procurador no dia 16 de dezembro ao mandarim.
Mais uma morte ocorreu em Macau, desta feita numa noite que se queria de festa. Acreditando que o ferimento mortal que atingiu Ahy não foi “feito de propósito” e aceitando que “o China caiu sobre a faca com que o moço se defendia, quando o deitou no chão” nada podia justificar que a vida retirada daquele modo fosse compensada com outra morte. Crenças que legitimavam o pedido “que este seja um dos perdoados pelo Magnífico imperador”.
A benevolência e o perdão do Filho do Céu não eram extensivos aos estrangeiros que cometessem crimes de tão grave natureza, “porquanto o Réu usou duma faca de mato, para matar o homem, segundo a lei deve morrer”. Esta passou a ser a reivindicação dos mandarins, que começaram a exigir a morte do culpado, não só como castigo merecido, mas também “para os mais escravos terem medo, e tomarem o exemplo, por que de outra forma toda a Cidade de Macau se pervertia”. Por outro lado, os senadores continuaram a reclamar pena mais leve para quem matou para defender a sua vida.
Certa foi a morte do chinês Ahy. Desconhecido ficou o destino de Sebastião. Ambos se desentenderam, sem razão, numa noite de festa, num desencontro que se prolongou, por razões distintas, aos juízes que governavam a justiça de Macau: a cada um a sua razão e a sua justiça, ou a falta de razão e o excesso de justiça que muitas vezes marcou os dias da Cidade.
Publicado no jornal Hoje Macau, em 19 de setembro de 2008.
Em Macau… “hão-de ser cada vez pior as desordens”
Alfredo Gomes Dias
A Cidade gastou a sua prata para consertar o bazar, e vimos Macau inteiro feito bazar, e Barracas de malfeitores… (Ofício do Procurador do Leal Senado, 1789).
Macau, 1789.
A vida de uma cidade conhece momentos em que tudo parece convergir para a anarquia e a desordem. Atinge-se, assim, a máxima incapacidade de administrar, com os governantes a passar para as mãos uns dos outros a culpa do que pior acontece e a responsabilidade de agir.
Macau não é exceção. A Cidade, no seu quotidiano de sossego e comércio, de tolerância e confiança, também conheceu dias agitados, difíceis de gerir, acumulando problemas de natureza muito diferente, em anos que pareciam criados para conhecer todo o tipo de problemas que punham em alvoroço governadores, senadores e mandarins. Em 1789, Macau parece ter conhecido um desses momentos, atraindo para o interior das suas muralhas as pessoas menos convenientes e os conflitos mais perturbadores.
A “gente má” invadia a Cidade. Os vagabundos vagueavam e jogavam pelas ruas estreitas de Macau, e “de noite vão furtar em toda a Cidade assim a Chinas, como a Cristãos”. Àqueles juntavam-se as “más mulheres” que chegavam às praias nas suas lorchas sem que ninguém ainda tivesse demonstrado disponibilidade para impedi-lo. Mulheres acusadas de arruinar muita gente: oficiais de ourives, mercadores e servidores, e todos os que se sentiam perdidos, desejando encontrar-se nos prazeres estendidos pelos braços de uma tancareira, embalados pelas águas serenas do porto de Macau… alguns conhecendo, no regresso, o sabor da ruína proporcionada por aquela aventura.
Gente má que, provocando “contínuas queixas e moléstias”, devia ser expulsa da Cidade. Esta era a opinião dos senadores, transmitida aos mandarins, “principalmente os Chinchéus que têm vindo muitos de novo”. Era esta a solução encontrada para uma Cidade que se deixava desorganizar por estas atividades pouco dignas, de mulheres e vagabundos. Por isso existiam barracas fora do Bazar, nas “ruas de frutas”, por onde circulavam amiúde escravos, soldados e crianças, talvez os grupos mais vulneráveis da sociedade macaense, à mercê de quem quisesse usar o abuso como forma de vida. Nestas ruas, principalmente, existiam “muitas desordens, e juntamente tiram a conveniência aos Botiqueiros que por isso não pagam os alugueis das suas Boticas a seus donos”, não só nestas ruas, mas também no Patane e na Praia Pequena. E como se tudo isto não chegasse, alguns eram chineses acusados de venderem o arroz para fora da terra com a conivência dos hopus que geriam as alfândegas chinesas de Macau, deixando subir o preço dentro da Cidade.
Os senadores pediram aos mandarins ajuda para que o sossego regressasse a Macau e, ao mesmo tempo, denunciavam “o cabeça dos Soldados do Ouvidor por nome Vai-tay” como um dos culpados pelos desacatos que existiam na Cidade, pois acumulava as suas funções de ordeiro oficial com as de desordeiro de rua, ao possuir “uma tenda, ou Barraca por sua conta na praia pequena aonde recebe más gentes, e dá de comer aos Chinas que vão a Lorchas das más mulheres. Tempos difíceis, quando era impercetível a linha que separava o ordeiro do desordeiro, cabendo ambos, muitas vezes, na mesma pessoa.
Na opinião dos senadores, o regresso ao sossego dependia do regresso do Bazar ao seu anterior sítio, donde havia saído por uma má decisão dos que governavam a Cidade. Arrependidos não confessos, reclamavam agora a necessidade de instituir “o bazar no seu ligar antigo”. Para isso, era preciso desmanchar todas aquelas barracas, ponto de encontro de maus vizinhos, fonte de origem de todas as desordens. Exigia-se a destruição daqueles abrigos de maus costumes mas, por vezes, a resposta surgia com “muitas pedradas contra mim”, assim rezava o procurador de Leal Senado.
Adiava-se a resposta pois temiam-se as consequências do uso da força, “pois se eu lhes desse licença eram bem capazes de fazerem fugir e de quebrar muitas pernas, cabeças e mãos; e haveria maiores desordens como mortes”. Deste modo, parecia temer-se a força que se tinha e reclamava-se que os meirinhos e cabeças de rua cumprissem a sua função. Estes identificaram os apedrejadores – eram “más gentes do mar, e vagabundos” – e prometeram a sua rápida identificação. Promessas falsas para os apedrejados pois sabiam que todos juntos, más gentes do mar, meirinhos e cabeças de rua, “sempre comem e bebem juntos”.
Macau sempre foi o que as suas gentes dela faziam, dos que a ela chegavam – chinchéus, vadios e más mulheres – e dos que nela viviam da venda fácil, do jogo, do roubo e do desacato momentâneo. Mas também daqueles que, governando e decidindo, não eram capazes de impedir a proximidade cúmplice entre os fazedores da ordem e da desordem, nem de respeitar o pulsar natural dos espaços, dos ritmos, e dos homens e mulheres da Cidade que diziam querer defender.
Publicado em 2020 07 30.
Em Macau… “numa lorcha de tanca”
Alfredo Gomes Dias
… e perguntando eu à dita tanca, e disse que o dito inglês tinha ficado com ela de noite… (Chapa do Mandarim da Casa Branca, 1790).
Macau, 1790.
As cidades que possuem um porto aberto para o mundo ficam também vulneráveis a receberem esse mesmo mundo dentro da vida, singular, de cada um dos seus habitantes.
Dos estrangeiros que visitavam Macau, muitos eram marinheiros que não procuravam apenas a fortuna ou a guerra. Aliás, sabemos que a sorte da riqueza estava reservada a muito poucos. A maioria contentava-se com as migalhas sobrantes dos ricos negócios ou ficava reduzida à morte numa batalha cuja razão, mais funda, desconhecia. Restava-lhes ainda a possibilidade de irem ao encontro dos prazeres que o mar negava aos homens que nele se demoravam e pelos quais esperavam semana após semana.
Estes marinheiros, de viagens longas e permanências curtas na Cidade, encontravam muitas vezes esses deleites nas mulheres dos tancares, mareantes de viagens curtas cuja permanência no porto de Macau permitia edificar a sua casa e seguir a rota escolhida para a sua vida. Mulheres que habitavam o bairro da Cidade construído sobre as águas avessas aos costumes da terra firme, preferindo sempre o sustento oferecido pelo mar e pelo rio.
Algum desse sustento era retirado do fundo das águas onde viviam e navegavam, nunca se afastando muito do seu bairro flutuante. Mas outro chegava sobre as águas, em forma humana, revestido pela pele de um marinheiro dos grandes navios, mercantes ou de guerra, que visitavam os mares do Celeste Império.
Quando um marinheiro queria visitar a Cidade, quer tentando esquecer por algumas horas o navio onde viajou, que ia ficando cada vez mais pequeno em cada dia passado no mar, quer recordando a terra e as gentes que deixou para trás, pedia a uma dessas pequenas embarcações com a forma de casca de ovo – os tancares – que o transportasse a uma das praias de Macau.
No dia 27 de maio de 1790, Ian-Macay, um marinheiro inglês, solicitou o serviço de uma das mulheres dos tancares. Um dia que se prolongou pela noite. Um serviço de transporte que facilitou a viagem a outros portos, talvez menos seguros, mas com certeza mais acolhedores aos sentimentos que a todos são comuns, homens e mulheres, chineses e europeus. E se os afetos estiveram ausentes, ficaram talvez as fantasias que as sucessivas noites no mar foram acumulando e que o pequeno tancar se dispôs a satisfazer. A embarcação de reduzidas dimensões ficou do tamanho do mundo, com um espaço imenso onde duas vidas que nada tinham em comum decidiram partilhar algumas horas a troco de escassas moedas e momentâneos prazeres saciadores de desejos escondidos.
Da tancareira nem o nome ficou registado. Uma entre muitas que sempre permaneceram anónimas, o primeiro passo para que fossem esquecidas, apagadas da história. Sabemos apenas que passou a noite com Ian-Macay, dentro de uma lorcha na Praia Pequena, e, por isso, foram os dois enviados ao mandarim da Casa Branca, escoltados pelos meirinhos de serviço, com o peso de quem cometeu um crime e que, portanto, devia ser castigado.
A tancareira, transportadora de homens e de sonhos, estava impedida de se envolver em braços estranhos. Ao inglês estava vedado conhecer Macau através do corpo de uma mulher, depois de já ter percorrido metade do mundo. Desconhecemos o castigo que foi aplicado à tancareira. Quanto ao inglês, foi remetido ao procurador do Senado a fim de lhe ser determinada uma pena ajustada à prevaricação cometida e, assim, evitar desordens maiores na Cidade. Mas, não é muito importante, hoje, conhecer o castigo aplicado a quem decidiu amar-se numa praia de Macau, na noite de 27 de maio.
Fosse qual fosse cada um dos castigos, eles aparecem aos nossos olhos como atos de injustiça de uma justiça cega aos corações que mutuamente se entregaram quando a oportunidade surgiu e o tempo escasseava, cada um com a ansiedade de quem esteve toda a vida à espera que aquele momento acontecesse.
Nesta história da Cidade, importa relembrar o crime e não o castigo, um delito praticado por dois seres sempre em viagem que, naquela noite, decidiram parar e acreditar que seria possível ao vasto mundo, conhecido e desconhecido por cada um, abrigar-se, com afetos e sonhos, numa pequena lorcha, numa pequena praia de Macau.
Publicado em 2020 07 30.
Em Macau… “uma chalupa inglesa na Taipa”
Alfredo Gomes Dias
… e como apanhou várias tempestades que romperam as velas, e as cordas, foi forçoso vir aqui… (Chapa do Mandarim da Casa Branca, 1791).
Macau, 1791.
Para chegar ao seu destino, capitão e marinheiros desejavam todos os dias bons ventos e correntes favoráveis. Mas esta não era a única forma de aportar em Macau. Ventos contrários, nascidos de tempestades inesperadas e sempre temidas, despertavam medos e, por vezes, obrigavam a mudanças de rota e paragens imprevistas em terras que não constavam do traçado inicial da viagem. Barcos que navegavam próximo de Macau, com destino a terras vizinhas, podiam ser obrigados a visitar a Cidade do Nome de Deus, esperando desta a ajuda necessária para reparar os danos causados… com certeza… por deuses de outras crenças.
Macau cumpria assim a sua função de porto de abrigo, que desempenhava desde a fundação do estabelecimento dos portugueses, em meados de quinhentos. No dia 29 de Maio de 1791, mais um navio procurou socorro em Ou Mun, a Porta da Baía, por onde entrou uma chalupa inglesa em busca de socorro e protecção. A embarcação “que veio da sua terra”, empurrada por uma tempestade, fundeou no porto de Macau, necessitando de reparar as velas e as cordas que se romperam durante a luta travada contra ventos que apostaram em mudar o destino que os homens haviam escolhido para si próprios. Como se ao traçar a rota da sua viagem, capitão e marinheiros desafiassem os deuses que se julgavam no direito de serem os únicos a poderem desenhar a linha da vida de todos os que se aventuravam no mar. Como se as vagas, levantadas pelos ventos, tivessem o firme propósito de pôr tortas as linhas da viagem traçadas a direito, com régua e compasso.
Chegado a Macau, o capitão da chalupa inglesa pediu autorização ao governador para estacionar na ilha da Taipa e aí fazer as reparações que necessitava para retomar a sua jornada, rumo a Manila. Pedido que foi aceite, sendo aliás de difícil recusa pois seria impossível obrigar um navio danificado nas suas velas e cordas a prosseguir tão longa viagem.
Óbvio para uns. Para outros, a desconfiança ou a necessidade do cumprimento rígido das regras há muito definidas foram causas suficientes para que a realidade fosse vista de outro modo. As ordens do imperador falavam mais alto do que as velas rasgadas. A proibição de estacionar em Macau compensava as cordas quebradas. Por isso, era urgente que se dissesse ao capitão da dita chalupa inglesa “que não demore muito tempo na Taipa, e que faça a vela quanto mais breve puder”, não devendo esquecer-se de avisar os mandarins quando decidisse partir.
Os dias foram passando, a embarcação continuou na Taipa e os vereadores do Leal Senado mantiveram-se compreensivos para com o capitão da chalupa que pediu vinte dias para poder fazer as reparações necessárias. Quanto ao mandarim da Casa Branca, mostrava-se cada vez mais irredutível na afirmação das suas leis e autoridade. Por isso, no dia 8 de Junho, ao tomar conhecimento daquela pretensão dos marinheiros da chalupa em dilatarem a sua estada na Taipa, apressou-se a esclarecer que os motivos apresentados não eram suficientes para que mudasse de opinião “e assim não é conveniente que aqui fique mais”, exigindo que saísse imediatamente de Macau.
Os senadores, pela pena do seu procurador, limitaram-se a dar a resposta possível, breve e lacónica, à exigência impossível de respeitar: “Que a licença lhe foi concedida para se demorar por precisar conserto, o qual estava fazendo, e por esta razão não tinha feito viagem, nem o podia fazer enquanto não fosse consertada.”
A realidade da Cidade e do seu porto nem sempre correspondia à vontade de quem governava e, por vezes, momentos havia em que os governantes pareciam acreditar que o mundo à sua volta se moldaria aos seus olhos, às suas leis e aos seus desejos. No dia 2 de Julho, a realidade parecia manter-se imóvel: a chalupa permanecia na Taipa, o Senado mantinha a sua compreensão, os mandarins surgiam mais intransigentes que nunca. O procurador era rotulado de “negligente fazendo a vontade dos Estrangeiros” e o mandarim era, por seu lado, transparente nas suas instruções: “que sem demora o Procurador pessoalmente vá deitar fora a Chalupa”.
Como aconteceu frequentemente na História de Macau, a passagem inexorável do tempo nem sempre foi sinónimo de mudança. Como neste caso, a razão foi-se afirmando, ao longo dos dias, graças à imobilidade da chalupa, impedida de se fazer ao mar. A tolerância e prudência de uns, respondendo à intransigência de outros, permitiu confirmar à Chalupa inglesa que aportar em Macau, mesmo com ventos desfavoráveis, seria sempre chegar a bom porto.
Publicado em 2020 07 30.