ESTUDOS DA HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA DE MACAU

Diáspora Macaense (séc. XIX-XX). Territórios e identidades: a família Carion

Introdução

O conceito de diáspora corresponde a um conjunto de movimentos migratórios que se estruturam em torno de três dimensões: a dimensão espacial, que representa a dispersão de um povo por um conjunto de territórios; a dimensão temporal, resultado dos fluxos migratórios que se estendem por diversas gerações; a dimensão relacional, que se traduz na complexa rede social que dá suporte ao arranque e à continuidade geracional da migração.

A compreensão de um fenómeno social com estas características implica entendê-lo em dois diferentes níveis de análise que visam, em última instância, apreender, na sua totalidade, a condição humana de uma sociedade: por um lado, a pluralidade das diferentes comunidades que, com as suas características, são portadoras de uma identidade sociocultural; por outro lado, as mutações que ocorrem no quadro sociocultural de uma comunidade ao longo do tempo, particularmente quando é protagonista de um processo diaspórico.

Na primeira fase da diáspora macaense, iniciada em 1842 e que se prolonga até aos anos da II Guerra Mundial, podemos identificar com alguma clareza a existência de um triângulo territorial composto por três cidades, todas elas localizadas em território chinês: Macau, considerado território de origem da emigração macaense; Hong Kong, simultaneamente, o primeiro território de destino dos macaenses logo que os britânicos transformaram aquela ilha numa colónia na sequência da I Guerra do Ópio (1839-1842), e o território de origem de muitos migrantes de segunda geração que rumaram a Xangai. Esta é a terceira cidade, para onde migraram muitos macaenses, na sua maioria naturais de Macau, alguns passando por Hong Kong, outros viajando diretamente para a cidade das concessões estrangeiras que transformaram Xangai num espaço urbano de projeção internacional.

Na sua segunda fase, as consequências da II Guerra Mundial em Xangai, em Hong Kong e em Macau deram origem a novos fluxos migratórios, tendo estas três cidades como territórios de origem. Quanto aos destinos, são aqueles que hoje reconhecemos como os mais significativos da diáspora macaense: Austrália, EUA, Canadá, Portugal e Brasil.

O reconhecimento desta complexa teia de fluxos migratórios conduz-nos à microanálise que nos propomos apresentar num estudo próximo. Por agora, limitamo-nos a desenvolver uma micro-análise deste processo, centrando-nos no exemplo de uma família macaense – Carion – da qual conhecemos os protagonistas da emigração, em particular para dois territórios de destino: numa primeira fase para Xangai e, numa segunda fase, para o Rio de Janeiro. O estudo desta família concretiza-se através da análise dos itinerários migratórios construídos ao longo de cem anos, por várias gerações, e dos testemunhos registados na obra Macau Somos Nós. Um Mosaico de Memória dos Macaenses no Rio de Janeiro, publicada em 2001 (Doré, Correia de Almeida & Moura, 2001).

Carion em Xangai

Desconhecemos a origem do nome Carion: espanhol, francês, alemão? No entanto, sabemos que a primeira pessoa identificada com este apelido na obra de Forjaz é João Gregório Carion (Manila, ±1790 – Macau, 1838), descendente de Salvador Vicente de S. Domingos, que viveu em Manila no final do séc. XVIII (Fig. 1) (Forjaz, 1996; Dias, 2014) .

Fig. 1 – Itinerário migratório da família Carion: de Manila a Xangai

Publicado em 2020 07 30

Resumo

Os testemunhos dos migrantes macaenses são um importante contributo para o conhecimento e análise dos principais segmentos dos itinerários migratórios construídos partir de 1842: em primeiro lugar, as migrações que se registaram entre três cidades chinesas – Macau, Hong Kong e Xangai; num segundo momento, a sua dispersão por outros territórios, noutros continentes. Neste artigo, centramos o nosso estudo em torno do caso da família Carion, seguindo o seu percurso de Macau até Xangai, numa primeira fase, e depois, o regresso à cidade de origem e a sua partida para o Rio de Janeiro, em meados do século XX. O exemplo da família Carion explicita os contornos que assumiu a integração dos migrantes macaenses nas sociedades que os acolheram, não só por força das suas características políticas, económicas e socioculturais dos territórios, mas também pela influência dos perfis socioculturais dos próprios migrantes.

Fonte: Forjaz, 1996, pp. 639-651.

Fonte: Forjaz, 1996, pp. 639-651.

Um dos netos de João Gregório Carion, Fernando Florêncio Carion, nascido em Macau (Sé) no dia 20 de Novembro de 1847, foi o primeiro elemento da família a emigrar para Xangai, cidade onde faleceu a 15 de Abril de 1903. Antes de Xangai terá passado por Hong Kong, cidade onde nasceram os primeiros três filhos do seu primeiro casamento, celebrado em 1860 na Sé, com Eufrónia Dinamérica Maher (Forjaz, 1996). Em Xangai assumiu a profissão que ocupava a esmagadora maioria dos macaenses que se instalaram naquela cidade: empregado de comércio (Forjaz, 1996).

Depois de Fernando Carion, outros elementos da família seguiram o mesmo destino, nomeadamente os filhos de João Calisto Carion (Macau, 1831 – Macau, 1894), casado com Maria dos Anjos Pereira de Campos, com quem teve doze filhos, um dos quais adotivo (Forjaz, 1996). A rede familiar da emigração da família Carion para Xangai começa a ser tecida nesta geração. Fernando Florêncio Carion celebra o seu segundo matrimónio, em 1890, com a sua prima Maria Aurelina Carion (Macau, 1856 – ? ), a filha mais velha de João Calisto Carion e de Maria dos Anjos. Outros irmãos de Maria Aurelina rumam a Xangai, nomeadamente Eduardo Maria Carion, nascido em Macau no ano de 1870, falecendo na sua cidade natal em 1954, como refugiado de Xangai (Forjaz, 1996).

Eduardo Maria emigrou para Xangai em 1892, com cerca de 22 anos de idade e, tal como Fernando Florêncio Carion, trabalhou nas atividades comerciais da cidade, numa época em que Xangai experimentava um novo surto de desenvolvimento económico.

Que Xangai esperava encontrar a família Carion? Desde o seu arranque em 1843, com a chegada dos primeiros ocidentais, Xangai conheceu diferentes fases de desenvolvimento de uma economia urbana moderna:

“1843-1864, período de entrada em funcionamento do sistema económico capitalista maduro e completo na economia de Xangai, no qual predomina a tradicional autossuficiência económica.

1865-1894, período de crescimento estável da economia de mercado capitalista na vida económica e urbana de Xangai.

1895-1949, período de ascensão da economia urbana industrializada, de características orientais, formação e desenvolvimento do centro económico internacional de múltiplas funções, que compreende três subperíodos:

1895-1911 – ascensão da economia urbana industrializada;

1912-1936 – formação e prosperidade do centro económico internacional de múltiplas funções;

1937-1949 – recessão anormal da economia urbana de Xangai, perturbada pelas guerras nacionais e internacionais.” (Zhengshu, 1996, p. 37)

Em síntese, podemos considerar que, de meados do século XIX até à I Guerra Mundial, o sistema urbano de Xangai conheceu o seu processo de formação, reflexo do crescimento da economia de mercado capitalista e de uma economia urbana industrializada. A idade de ouro do estilo colonial de Xangai, o período da arquitetura anglo-indiana, encerrou com o conflito mundial de 14/18. Depois da guerra, a situação económica internacional, o enfraquecimento do poder de estado na China e o declínio das velhas potências imperiais favoreceram o crescimento e a expansão da cidade. Assim, de 1919 a 1927, Xangai atingiu o ponto mais alto do seu nobre destino, (Bergère, 1986) fase que se manteve até às vésperas da invasão japonesa que, na Ásia, antecipa a II Guerra Mundial.

Xangai, uma das ‘cidades dos portos dos tratados’, graças à autonomia das suas concessões, atraiu uma grande parte da atividade política, económica e cultural chinesa. Nesta cidade instalaram-se as indústrias modernas, as instituições bancárias, os jornais de maior influência e estúdios de cinema (Esherick, 2000). Foi a partir de 1919 que o modelo de Xangai atingiu o seu ponto máximo ao mesmo tempo que revelava as suas fraquezas. De facto, entre as duas guerras mundiais, Xangai não parou de se desenvolver, de aumentar a sua população, e de fortalecer o seu poder económico e a sua influência política e cultural. Contudo, a degradação do seu estatuto internacional colocou em perigo a sua prosperidade que, durante um século, foi construída pela integração no mercado mundial e por uma relativa independência da administração burocrática chinesa (Bergère, 1986).

Foi esta a cidade escolhida por uma imensa comunidade de macaenses que nela se fixaram e nela viram nascer os seus filhos. Todavia, a partir de 1937, a cidade, sofrendo as consequências da invasão japonesa e da II Guerra Mundial, iniciou o seu declínio definitivo. Entre 1937 e 1939, ainda conheceu uma certa prosperidade, mas que não era mais do que o anúncio do seu fim. A atividade nas concessões renascia, graças ao afluxo de refugiados que provocou um aumento da procura interna. Os bancos dispunham de importante liquidez, as matérias-primas eram importadas, e os emigrantes judeus oriundos da Europa Central forneciam abundantes quadros e técnicos. Para escapar ao controle dos japoneses, os empresários chineses fixaram-se a sul do rio Suzhou, provocando a deslocação do centro industrial da cidade para o coração das concessões estrangeiras (Bergère, 1986).

Mas as concessões estrangeiras não resistiram muito tempo devido às diferentes ondas de choque que chegaram de outros palcos onde se decidia a II Guerra Mundial e que foram abalando o quotidiano de Xangai.

No que diz respeito à Concessão Francesa, a derrota das tropas francesas na Europa em Junho de 1940, com a instalação do governo de Vichy e, no final de Agosto, a presença japonesa na Indochina, condicionaram o destino da sua sobrevivência em Xangai. Pelos acordos de 30 de Agosto, as autoridades da Concessão Francesa passam a entregar aos japoneses os ativistas chineses suspeitos de simpatizar com os nacionalistas. Nesse mesmo mês de Agosto, para evitar uma humilhação, Londres retira as últimas tropas de Xangai (Bergère, 1986).

Quanto à Concessão Internacional, o seu controle pelo poder nipónico ocorreu algumas horas depois do ataque a Pearl Habour. Na alvorada do dia 8 de Dezembro de 1941, os navios japoneses atacam a última canhoneira inglesa, «Petrel» (Bergère, 1986).

No fim de 1942, os japoneses começaram a acantonar todos os estrangeiros que ainda estavam na dependência das concessões estrangeiras. Num ano, oito mil britânicos e algumas centenas de americanos foram enviados para meia dúzia de campos, geralmente situados na periferia da cidade; os judeus concentram-se no gueto de Hongkew, em Fevereiro de 1943. No ano seguinte, primeiro a Concessão Francesa, depois a Concessão Internacional, são entregues ao governo colaboracionista de Wang Jingwei. (Bergère, 1986).

Após o fim das concessões estrangeiras, Xangai continuou a sofrer com a turbulência política que se vivia na China. Em 1945, a capitulação japonesa permitiu a entrada das tropas nacionalistas de Jiang Jieshi (Chiang Kai-shek) na cidade e durante os quatro anos que se seguiram manteve-se acesa a guerra civil que opôs nacionalistas e comunistas. No dia 25 de Maio de 1949, o Exército Vermelho entrou em Xangai.

Foi num contexto de guerra e de grandes carências que as famílias macaenses começaram a regressar, umas a Macau, outras a Hong Kong. Entre elas contavam-se os descendentes da família de Eduardo Maria Carion, nomeadamente o seu filho Eduardo José Gregório Carion (Xangai, 1907 – Macau, 1952) acompanhado por sua esposa, Emília Maria Teresa Colaço, e pelos seus dois filhos, Leonardo José Carion (Xangai, 1945 – ? ) e Augusto Eduardo Carion (Xangai, 1947 – ? ). Mais dois filhos nasceram, já em Macau: Mário António Colaço Carion (Macau, 1949 – ? ) e Leona Lourdes Colaço Carion (Macau, 1952 – ? ). Leona nasceu no dia 4 de Maio de 1952, e seu pai faleceu dois meses depois, a 6 de Julho.

São estes quatro irmãos Carion, os dois mais velhos, “filhos de Xangai”, os dois mais novos, “filhos de Macau”, que testemunham a experiência migratória da sua família neste momento difícil de partida de Xangai ou, melhor dizendo, de “regresso” à terra de origem que é sempre Macau, em anos de guerra e de fome.

“Conforme minha mãe contou, no final da guerra não havia comida, ela só comia farinha com rapadura. Fazia um bolinho de farinha com água e rapadura e ela me alimentou com isso no leite, basicamente. Ela me contou que a comida era escassa e tinha contrabando de carne humana. E também contava que porque não tinha comida, cada ratazana que aparecia na rua tinha umas três dúzias de chineses correndo atrás. E casca de árvore se comia também. Isso quando já estava sob o domínio japonês.” Leonardo Carion (Doré, Correia de Almeida & Moura, 2001, p. 32).

Para trás ficava uma cidade de “vida mansa”, onde, depois da guerra, era impensável aceitar a mudança de regime anunciada em 1 de Outubro de 1949. Xangai era “tranqüila, uma cidade da noite, dos boêmios, cidade dos músicos, artistas, como é até hoje. Com a população de toda raça européia, inclusive da chinesa, era uma cidade divertida.” Leonardo Carion (Doré, Correia de Almeida & Moura, 2001, pp. 35-36).

É esta ainda a imagem que perdura de Xangai dos anos 20 e 30 do século XX, como um centro cultural multiforme, abundante, criativo, moderno, desenvolvendo uma cultura fortemente influenciada pelo pensamento e pelos costumes do Ocidente. Uma cidade onde as civilizações estrangeiras são conhecidas, apreciadas, imitadas, mas que o todo se mantém marcadamente chinês. Assistimos à sinização das criações nascidas a partir da influência ocidental, que, de facto, se enraízam. O cinema é um bom exemplo do que acabamos de afirmar (Henriot & Roux, 1986).

É esta a cidade descrita por Leonardo Carion: Xangai, uma cidade internacional e cosmopolita, um cruzamento do Este e do Oeste, juntando povos diversos, que nunca se misturaram. As palavras que designavam os habitantes da cidade exprimem claramente esta realidade: os residentes estrangeiros de longa data chamavam-se ‘Shanghailander’ para se distinguirem dos habitantes chineses que se chamavam, naturalmente, ‘Shanghaïens’. O primeiro termo significava que eles só se reconheciam ligados à área das concessões estrangeiras (Henriot & Roux, 1986).

Este cosmopolitismo da cidade de Xangai foi transportado pelos migrantes macaenses que nela residiam no seu regresso a Macau, para quem “Xangai era uma cidade grande e na época era tipo Nova York. Era bonita, era mais comercial, era super desenvolvida, comparada a Macau, na época.” E “porque nós éramos de Xangai (…) tínhamos mais visão que o pessoal de Macau.” Augusto Carion (Doré, Correia de Almeida & Moura, 2001, pp. 195-196).

De Xangai para Macau

Em 1949, a família Carion chegou a Macau, encontrando também uma cidade devastada pelos efeitos de uma guerra que a cercava, em particular com a rendição de Hong Kong no Natal de 1941 às forças militares japonesas (Dias, 2010). Os anos da guerra tiveram grandes repercussões em Macau.

Primeiro, a degradação das condições de vida da sua população contrastava com as fortunas acumuladas por alguns na atividade de importação e exportação em tempo de guerra, e fortemente condicionada pelo “cerco” japonês à única cidade que se mantinha fora da guerra na região do Pacífico (Zhiliang, 1999) Por um lado, Macau era uma cidade marcada pelo encarecimento dos produtos, pela ausência de produção interna e pela escassez de produtos alimentares, e os que havia tinham preços exorbitantes, nomeadamente os vegetais: “foram quatro anos a comer arroz e peixe salgado, quando os havia, ou carne de animais impróprios para consumo, segundo um dos residentes. A carne humana parece ter sido também consumida” (Reis, 2003, p. 385) Por outro, as grandes fortunas rapidamente mudavam de dono, em parte, graças ao incremento das atividades do jogo, ópio e prostituição, mas não só: “Grandes quantias de ouro e prata foram introduzidas em Macau, através de todos os canais possíveis, dando origem a um boom do mercado financeiro, muito caracterizado por especulações. Não faltava quem se tornasse milionário de um dia para o outro ou quem perdesse tudo num ápice” (Wu, 1999, p. 300).

Em segundo lugar, a pressão migratória de Cantão para Macau contribuiu, em grande medida, para aquele agravar da situação de carência em que  o território já se encontrava. De acordo com Wu Zhiliang, (1999) o governo de Guangdong tentou preparar a cidade de Macau para que ela se constituísse como um refúgio para todos os que desejassem partir. A ilustrar esta realidade encontramos a transferência, para Macau, de 30 escolas evacuadas da China. Com o desembarque das tropas japonesas na Baía de Shenzheng, em 1939, e a Batalha da Cidade de Cantão que se seguiu, milhares de Chineses encontram em Macau a cidade-refúgio que tanto desejavam e a sua população (Gunn, 1998) atingiu rapidamente o total de 250 mil habitantes (Wu, 1999). Deste modo, Macau transformou-se no território de chegada para muitos macaenses, na sua maioria migrantes de segunda geração, naturais de Hong Kong e Xangai.

Entre eles encontrava-se a família Carion, para quem Macau foi o seu porto de abrigo, território de destino da migração que fizeram a partir de Xangai e, mais tarde, o território de origem quando demandaram as terras do Brasil.

“Meu avô paterno era português de Portugal, Collaço. Casou-se com uma chinesa. Meu pai era contador numa firma inglesa, Texaco, se não me engano. Na época da guerra era contador de lá. Quando houve a guerra foi para Macau, mas em Macau era difícil conseguir emprego, ele estava refugiado e ficou muito difícil para ele. Ele faleceu quando eu tinha cinco anos”. Augusto Carion (Doré, Correia de Almeida & Moura, 2001, pp. 194-105).

Se fizermos fé nas informações recolhidas por Jorge Forjaz (1996), o avô paterno de Augusto Carion era Eduardo Maria Carion, natural de Macau e não de Portugal (Fig. 2). Tendo nascido em 1870, tinha 22 anos quando emigrou para Xangai para “trabalhar no comércio”. A acreditar na memória de Augusto Carion, a sua avó era “chinesa”: trata-se de Maria da Glória dos Anjos Carion, natural de Xangai, filha de Ubaldo Vicente Maria da Luz Carion (Hong Kong-1874; Xangai-1935) e de sua primeira esposa, Virgínia Maria Lopes (Forjaz, 1996).

Fig. 2 – Família Carion: descendentes de Eduardo Maria Carion e de Maria Glória dos Anjos

Fonte: Forjaz, 1996, pp. 649-650.

Fonte: Forjaz, 1996, pp. 649-650.

“Tive uma infância muito boa, não posso me queixar, porque as crianças lá em Macau brincam. (…) Tinha aquela briguinha entre o pessoal de Xangai, tinha a turma dos chineses, a turma dos portugueses, a gente não se dava muito bem assim. Tinha uns filhos de portugueses que moravam em Macau, pai militar, a gente se dava bem com alguns, mas a maioria era separado. Tinha uma divisão de status, de classe”. Augusto Carion (Doré, Correia de Almeida & Moura, 2001, pp. 194-195). Uma infância feliz, testemunhada por Augusto Carion, com memórias acumuladas em torno da sua passagem pelo Colégio D. Bosco, onde as origens das crianças que o frequentavam traduziam a fragmentação social existente: portugueses, chineses e macaenses, macaenses de Macau e macaenses de Xangai, num conjunto de relações que revela a complexidade da sociedade de um território onde as migrações ditavam a lei da formação sociocultural de um tão exíguo território.

No Colégio “obrigavam a gente a falar português”, mas a formação multilinguística fazia parte dos dias passados numa cidade aberta à diversidade cultural como Macau: “Minha mãe falava connosco em inglês, no colégio era o português e na rua o chinês.” Augusto Carion (Doré, Correia de Almeida & Moura, 2001, pp. 195-196).

“Em casa falávamos inglês. A minha mãe falava uma mistura de português, tipo patuá e tinha o chinês de Xangai e tinha o inglês. Em Xangai convivíamos com muitos americanos. A minha família toda fala inglês, é uma influência americana muito forte. Em casa, nós falávamos inglês, na escola o português e na rua o chinês. Ficava essa mistura”. Mário Carion (Doré, Correia de Almeida & Moura, 2001, p. 199).

De Xangai para Macau, as competências multilinguísticas foram-se reforçando, (i) na escola, com os padrões rigidamente definidos como no Colégio D. Bosco, revelados pelos macaenses que o frequentaram como os irmãos Carion, (ii) em casa, no contexto familiar, herdeiro de padrões multiculturais que o casamento e os filhos transformavam em sínteses geradoras de uma nova identidade; e (iii) na rua, onde o chinês se aprendia no meio de brincadeiras que integravam ou excluíam, mas que eram sempre resultado de um encontro de crianças.

Esta convivência social, nestes diferentes contextos de transmissão cultural remete-nos para o conceito de capital cultural no modo como foi aprofundado por Pierre Bourdieu. As circunstâncias familiares e as aprendizagens escolares tendem a promover um capital (cultural) que pode transformar-se numa variável compensadora das fragilidades financeiras do indivíduo ou do grupo, se estes forem capazes de o mobilizar no sentido de alcançar um novo estatuto e poder social (Fiels, 2003). Indo mais longe, Bourdieu (2010) afirma claramente que na variável educativa, o capital cultural, é um princípio de diferenciação quase tão poderoso como o capital económico.

Neste sentido, como veremos de seguida, as competências multilinguísticas desenvolvidas pelos macaenses, em casa, na escola e na rua, às quais poderemos depois juntar a ocupação de determinadas atividades profissionais no tecido económico das cidades onde se estabeleceram, vão ser um importante fator facilitador da integração social dos migrantes macaenses nos diferentes territórios da diáspora.

De Macau para o Rio de Janeiro

Depois da segunda guerra mundial, os migrantes macaenses que saíram de Xangai como refugiados tiveram dois caminhos à sua escolha: ou optaram por regressar aos territórios de origem, Macau e Hong Kong, ou decidiram iniciar uma nova fase do itinerário migratório familiar e partir para um novo território fora da Ásia. Entre os que partiram para a Europa (Portugal e Grã-Bretanha) e América (EUA, Brasil e Canadá), alguns fizeram-no diretamente a partir de Xangai; outros, depois de uma estadia em Macau ou Hong Kong, decidiram partir de novo depois de um regresso pouco promissor, e curto, a Macau. A família Carion situa-se nesta última categoria.

Segundo Leonardo e Leona Carion, a chegada ao Rio de Janeiro ocorreu em 1963 (Doré, Correia de Almeida & Moura, 2001). A integração numa nova cidade, num novo país, num novo continente, reflete-se num múltiplo espelho onde as características dos migrantes se reveem nos empregos que ocupam, na afirmação da sua identidade e nos laços que mantêm com os territórios de origem, neste caso, Macau e Xangai.

Leonardo Carion descreve-nos a sua história, repartindo-se entre a vontade de trabalhar e as paixões da sua juventude. Começou por arranjar emprego na GE, aos 18 anos, com o auxílio de um tio, como assistente de engenheiros. Emprego que manteve por uns escassos nove meses, quando soube, por um primo, que na Pan Am havia uma vaga: “Não é possível, um lugar desses cheio de mulheres bonitas e eu só com homens…” (Doré, Correia de Almeida & Moura, 2001, p. 112). A troca de emprego não se fez esperar, mas o que importa reter é que, na GE e na Pan Am, Leonardo obteve o seu emprego graças ao domínio do inglês: “Tinha umas 20 pessoas fazendo prova, e eu sei que a prova foi fácil para mim, pediram para bater à máquina, eu bati à máquina. Traduz, traduzo. Conversou comigo em inglês. Abriram umas plantas de construção e pediram para ler, eu li toda a construção, O.k. Amanhã você pode trabalhar? – Posso? Eu tive sorte”. (Doré, Correia de Almeida & Moura, 2001, p. 111). Na Pan Am, o “director administrativo fez o teste comigo, todos os testes, o inglês era o mais importante” (Doré, Correia de Almeida & Moura, 2001, p. 112). E, mais uma vez, Leonardo conseguiu o emprego, não por “sorte” mas por fazer uso do capital acumulado na família, na rua, na escola, em Xangai e em Macau.

Com Augusto Carion, a história, de certo modo, repete-se. Depois de trabalhar numa empresa, empregou-se na Embaixada da Austrália “porque precisavam de alguém que falasse um pouco de inglês” e porque se criou uma empatia com o entrevistador, conselheiro consular, cuja esposa era natural de Xangai: “Aí então falei com ele que nasci em Xangai…” (Doré, Correia de Almeida & Moura, 2001, p. 115).

O resultado destas histórias sublinha-nos as características culturais que os macaenses transportaram consigo nos diferentes segmentos espaciotemporais dos itinerários migratórios percorridos: de Macau para Xangai ou de Macau para o Rio de Janeiro.

Para além deste capital cultural acumulado nos territórios de origem, os seus testemunhos remetem-nos também para a importância que as redes sociais assumem nos processos migratórios, quer na origem, quer no destino, aqui protagonizadas pela família, tios e primos, ou pelas simples empatias criadas em torno de origens comuns, como Xangai. Em síntese, na origem, as redes podem inibir ou motivar a emigração dependendo da extensão dos apoios económicos e sociais. No destino, as redes podem facilitar ou desencorajar a integração, dependendo da extensão dos recursos que são colocados à disposição do emigrante. As redes constituídas entre a origem e o destino podem desempenhar um papel importante canalizando a informação, os emigrantes, as remessas de capitais e as normas de integração para a comunidade de origem, de forma a estar disponível a alimentar o fluxo migratório que se constituiu (Kritz, Lin & Zlotnik, 1992). Consideramos, então, que o arranque de um determinado fluxo migratório resulta dos desequilíbrios sociais e económicos entre cidades, regiões ou países que se expressam, muitas vezes, em situações de dependência. Uma vez iniciado, a responsabilidade pela continuação do fluxo migratório recai na constituição e fortalecimento das redes sociais. “As migrações internacionais são, acima de tudo, um mecanismo produtor de redes” (Portes, 2006, p. 32).

No que diz respeito à afirmação da sua identidade, este é um tema complexo que torna sempre abusivas todas as tentativas de simplificar a sua análise. Contudo, os testemunhos deixados pelos irmãos Carion na obra que temos vindo a citar, permitem-nos dar relevo a algumas ideias fundamentais que nos ajudam a compreender como as características socioculturais do território de acolhimento e as dos migrantes se cruzam no processo de integração.

Aos olhos de Leonardo Carion, o “Brasil dá lição de miscigenação”. Para este macaense, “O Brasil não te reprime, te valoriza. Pelo contrário, te incentiva na tua identidade. E a tua identidade é aceitável perante o povo. Eles te consideram brasileiro e ao mesmo tempo sabem que é chinês” (Doré, Correia de Almeida & Moura, 2001, p. 114). Em última análise, os traços multiétnicos da sociedade brasileira transformam-na num contexto favorável à integração do “outro” e, simultaneamente, as características de miscigenação cultural dos próprios macaenses constituem-se como um factor facilitador para a sua integração numa cidade como o Rio de Janeiro.

A complexidade deste processo resulta no migrante num conflito de identidade por vezes entendido como “crise”, mas cujo resultado final surgia no fácil convívio do quotidiano.

“As pessoas não tinham ideia do que era Macau. (…) Tínhamos que explicar de onde vínhamos, e eles pensavam que éramos chineses, porque tínhamos cara de chinês a aí dizíamos que não… Mas, tínhamos um problema sério de conflito interno, porque lá [Macau] a gente considerava os chineses, chineses, e nós, portugueses. Aqui nós éramos chineses. Isso cria uma crise de identidade muito forte. Mas, como nossa cultura foi muito ocidentalizada, o nosso convívio, no dia-a-dia, foi mais fácil.” Mário Carion (Doré, Correia de Almeida & Moura, 2001, p. 123).

De um modo geral, esta imagem de crise identitária é resolvida pelos migrantes macaenses, desenvolvendo dois processos complementares: um deles, modelando-se à sociedade de acolhimento, principalmente através das laços que criam com os outros grupos étnicos com quem convivem; o outro, afirmando a sua identidade e reforçando as pontes (reais ou imaginárias) com os territórios de origem.

“Sempre, até hoje, digo que sou português. Nasci em Xangai, mas sou português. Tem pessoa que não conhece geografia e diz que sou de Macau uma colónia portuguesa na China e nem sabe que Xangai, numa época, pertencia aos portugueses. Em Xangai havia divisão de territórios, podia ter uma parte francesa outra inglesa…” Augusto Carion (Doré, Correia de Almeida & Moura, 2001, pp. 116-117).

A simplicidade com que se apresentam as concessões estrangeiras de Xangai resulta na existência de uma Xangai que “pertencia aos portugueses” e, desse modo, se confirmam e afirmam as origens portuguesas, indo além do território de origem.

Notas finais

A diáspora macaense, ao longo de várias gerações, dispersou-se por diferentes territórios, numa primeira fase, até à II Guerra Mundial, praticamente confinada às cidades portuárias de Macau, Hong Kong e Xangai e, numa segunda fase, difundindo-se para outras cidades, noutros continentes.

O estudo em torno da família Carion, através dos seus itinerários migratórios, de Xangai do século XIX ao Rio de Janeiro no século XXI, permite-nos reconhecer os vetores que mais influenciam as características dos fluxos migratórios que integram um fenómeno diaspórico, como é o dos macaenses.

Um desses vetores é o da caracterização dos territórios de origem dos migrantes e, desse modo, identificar as motivações económicas, o perfil sociocultural que facilita ou inibe a opção individual ou do grupo/família e, ainda, as redes sociofamiliares que o iniciam e suportam ao longo das diferentes gerações.

O segundo vetor, refere-se às características dos territórios recetores, quer no que diz respeito à sua tradição no acolhimento de imigrantes, quer quanto à composição sociocultural da sua população autóctone, quer, ainda, quanto aos mecanismos político-institucionais, facilitadores ou não, da sua integração.

Finalmente, o terceiro vetor centra-se no perfil dos migrantes, neste caso de estudo, macaenses, particularmente no que diz respeito às tradições migratórias da sua comunidade de origem; às características sociais e culturais que podem ser potenciadas no capital cultural a investir na sociedade de acolhimento; e, finalmente, as redes sociais que iniciam, orientam o sentido e garantem a manutenção dos fluxos migratórios ao longo das diferentes gerações.

Referências bibliográficas

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