FONTES: Refugiados de Xangai (1937-1948)
21 agosto 1937
PORTARIA DE 21 DE AGOSTO DE 1937
DO GOVERNADOR DE MACAU, ARTUR TAMAGNINI DE SOUSA BARBOSA (1937-1940 – 3.º MANDATO).
ARQUIVO DE MACAU: Acolhimento aos refugiados de Xangai e nomeação do diretor da Comissão de Assistência aos Refugiados e finalmente, extinção da dita Comissão.
MO/AH/AC/SA/01/16402 - AH/AC/P-16330 - A1292, fl. 1.
4 dezembro 1945
CARTA DE 4 DE DEZEMBRO DE 1945
DO REFUGIADO DE XANGAI, FERNANDO MARIA XAVIER, DIRIGIDA AO GOVERNADOR DE MACAU, GABRIEL MAURÍCIO TEIXEIRA (1940-1947). ANEXO: DECLARAÇÃO ABONATÓRIA DE 31 DE OUTUBRO DE 1945, DE JOÃO HENRIQUE VIEIRA BRANCO, CAPITÃO DE INFANTARIA E COMANDANTE DE 1.ª COMPANHIA INDIANA DE CAÇADORES AQUARTELADA NA VILA DE COLOANE, EM FAVOR DO REFUGIADO DE XANGAI, FERNANDO MARIA XAVIER.
ARQUIVO DE MACAU: Pedido feito por Fernando Maria Xavier, refugiado de Xangai, de uma passagem gratuita para Timor, para si, sua mulher e filha menor.
MO/AH/AC/SA/01/19159 - AH/AC/P-19085 - A1446, fls. 1-4.
5 setembro 1948
O QUE VAI PELA CIDADE, APONTAMENTO SOBRE A VOCAÇÃO DE MACAU PARA ACOLHER GENTE DE FORA.
O Clarim, p. 6.
21 agosto 1937
PORTARIA DE 21 DE AGOSTO DE 1937, DO GOVERNADOR DE MACAU, ARTUR TAMAGNINI DE SOUSA BARBOSA (1937-1940 – 3.º MANDATO).
PORTARIA
Considerando a necessidade de tomar com urgência as providências indispensáveis para receber e instalar na Colónia os portugueses de Xangai que dali tenham de retirar forçadamente, pela situação anormal desta cidade, conforme foi solicitado pelo respetivo Cônsul e autorizado por Sua Ex.ª o Ministro das Colónias em seu telegrama N.º 61 cif de 17 do corrente;
O Governador da Colónia de Macau, no uso das faculdades que lhe são atribuídas pelo Artigo 31.º do Ato Colonial e pelos N.os 4.º e 21.º do Artigo 33.º da Carta Orgânica do Império Colonial Português, determina:
1.ª – Que seja nomeado o major Luís Pinto Lello para dirigir os trabalhos necessários para o efeito propondo as medidas que julgue conveniente adoptarem-se;
2.ª – Que todas as autoridades da Colónia, e, em especial, o Administrador do Concelho de Macau e o Comandante da Polícia de Segurança, prestem diretamente àquele oficial, pelas Repartições a seu cargo, as informações e auxílio que pelo mesmo sejam solicitadas.
Cumpra-se.
Residência do Governo da Colónia em Macau, aos 21 de Agosto de 1937.
O GOVERNADOR,
4 dezembro 1945
CARTA DE 4 DE DEZEMBRO DE 1945 DO REFUGIADO DE XANGAI, FERNANDO MARIA XAVIER, DIRIGIDA AO GOVERNADOR DE MACAU, GABRIEL MAURÍCIO TEIXEIRA (1940-1947).
Senhor Governador da Colónia de Macau
Excelência
Após a ocupação de Xangai pelas forças japonesas, deixei aquela cidade, e acompanhado de minha mulher e filha menor, vim refugiar-me em Macau, sob a proteção da Bandeira da minha Pátria.
Os momentos difíceis da vida que eu e minha família aqui passamos foram caridosamente atenuados pela bondade de V. Ex.ª, Senhor Governador. Sem a vossa caridade, eu e minha família teríamos sucumbido, na terrível época que a Colónia atravessou.
Enquanto vivos formos, eu, minha mulher e filha guardaremos nos nossos corações os mais gratos agradecimentos a V. E.ª, Senhor Governador, e pedimos à Providência (pois só com orações podemos pagar a V. Ex.ª) para que vos dê e a vossa Exm.ª Família uma prolongada e feliz existência.
Durante os anos que aqui tenho permanecido, tenho procurado empregar toda a minha atividade que as minhas forças permitem, e portanto, trabalhando honestamente, dediquei todo o meu tempo em trabalhos úteis, pautando sempre com correção a minha conduta, porque assim e só assim eu, como bom português, podia corresponder ao bom acolhimento de V. Ex.ª, como Governador, me deu nesta Colónia.
Comecei por fixar residência na Ilha Coloane e ali ajudado por minha mulher, consegui trabalhar na cultura de um pequeno terreno.
Faltou-me o capital para continuar a fazer face à carestia, dia a dia agravada, e vi-me, a breve trecho, forçado a abandonar a exploração, por minha conta, daquele terreno.
Consegui depois empregar a minha atividade na “Exploração Agricola e Pecuária de Coloane” pertencente ao Quartel da 1.ª Companhia Indígena de Caçadores, e ali estive servindo durante dois anos como hortelão chefe pela forma como o Exm.º Comandante daquela Unidade atestou no documento que junto e onde gozo de gerais simpatias, tanto entre os Srs. Oficiais, como entre os sargentos e praças.
Muitos rapazes de Timor que fazem parte daquela Unidade são meus amigos e os quais vão em breve regressar à terra da sua naturalidade. Alguns deles me sugeriram a ideia de ir para Timor e prometeram que me auxiliariam para angariar o trabalho após a minha chegada a Timor.
Sinto-me com forças para trabalhar e nesta ordem de ideias e como em Macau não vejo possibilidade para empregar a minha atividade, julgo que em Timor, colónia portuguesa também, eu posso fazê-lo.
Porém, como sou pobre, como se verifica pelo documento passado pelo digna Administrador do Concelho de Macau, que também junto, vejo-me na necessidade de vir perante V. Ex.ª rogar o vosso generoso auxílio para que me seja concedida, bem como à minha família, passagem gratuita para Timor.
Levarei comigo as alfaias necessárias para os trabalhos agrícolas que ali pretendo iniciar.
Excelência: Ao apresentar esta exposição a V. Ex.ª eu fico absolutamente confiado na já comprovada bondade e nos sãos princípios de caridade que orientam V. Ex.ª.
E, desde já terei a juntar mais este benefício a tantos outros que me obrigam e minha família a uma dívida de uma profunda gratidão para com V. Ex.ª.
Macau, 4 de Dezembro de 1945.
Fernando Maria Xavier
ANEXO
DECLARAÇÃO
João Henrique Vieira Branco, Capitão de Infantaria e Comandante de 1.ª Companhia Indiana de Caçadores aquartelado nesta vila de Coloane da Colónia de Macau.-
DECLARO que FERNANDO MARIA XAVIER, casado, de 64 anos de idade, filho de Carlos António Xavier e de Cândida Maria Xavier, natural de Xangai, serviu, com muito zelo e competência, durante 2 (DOIS) anos como HORTELÂO CHEFE na exploração Agrícola e Pecuária desta unidade e que pelo seu irrepreensível comportamento, assiduidade no trabalho, pontualidade e muito interesse tomado pelo incremento e melhoramento da Secção Agrícola, se tornou merecedor de todos os elogios e consideração.-
E, por ser verdade e me ser pedido passo esta declaração que assino e lava sobre a minha assinatura o carimbo desta unidade que comando por nela não haver selo branco.
Quartel em Coloane, 31 de Outubro de 1945
O Declarante
(assinatura)
João Henrique Vieira Branco
5 setembro 1948
O QUE VAI PELA CIDADE, APONTAMENTO SOBRE A VOCAÇÃO DE MACAU PARA ACOLHER GENTE DE FORA.
Macau, mais uma vez lugar de refúgio, regurgita de uma população que se movimenta e diverte, dando vida à velha cidade, que depois da guerra parecia ter caído em profunda modorra. E a contestar variados augúrios, que anteviam uma derrocada fatal, a cidade retomou o seu posto, abrindo as portas a todos os fugitivos, que aqui encontram a paz e o sossego que as suas terras lhes não podem oferecer. É a história que se repete, por variadas formas e diferentes aspetos!