FONTES: Refugiados de Xangai (1949-1950)

 

19 maio 1949

CHEGARAM OS PRIMEIROS REFUGIADOS PORTUGUESES DE XANGAI

Notícias de Macau, p. 1.

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25 maio 1949

OFÍCIO Nº 242-M DE 25 DE MAIO DE 1949

DO PROVEDOR DA SANTA CASA DA MISERICÓRDIA, PEDRO JOSÉ LOBO, PARA O CHEFE DOS SERVIÇOS DE ADMINISTRAÇÃO CIVIL DE MACAU, MANUEL METELO, INFORMANDO QUE A SANTA CASA DA MISERICÓRDIA DE MACAU PROVIDENCIOU NO SENTIDO DE GARANTIR APOIO MÉDICO AOS REFUGIADOS DE XANGAI, QUER NA DELEGACIA DE SAÚDE, QUER NO HOSPITAL CONDE DE SÃO JANUÁRIO.

MO/AH/AC/SA/01/20081 - AH/AC/P-20007 - A1522, fl. 329.

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7 setembro 1949

CARTA DE 7 DE SETEMBRO DE 1949

ASSINADA POR G. E. ROLIZ, CHEFE DO CENTRO MASCULINO, E MERCIA FERREIRA, CHEFE DO CENTRO FEMININO, DIRIGIDA À SANTA CASA DA MISERICÓRDIA, SOLICITANDO A CONCESSÃO DE UM SUBSÍDIO MENSAL.

MO/AH/AC/SA/01/20080 - AH/AC/P-20006 - A1522, fl. 72.

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19 maio 1949

CHEGARAM OS PRIMEIROS REFUGIADOS PORTUGUESES DE XANGAI.

A cidade recebeu-os carinhosamente.

A bordo do vapor “Kwong Tung” chegou ontem a esta colónia o primeiro grupo de portugueses de Xangai, em numero de 110, que aqui vem refugiar-se, em resultado da actual situação provocada pela guerra civil na China.

Uma grande aglomeração de pessoas encontrava-se no cais de desembarque e nas vias públicas, próximas, aguardando a chegada desses 110 portugueses, na sua maioria mulheres e crianças, os quais, tomados de susto e cheios de tristeza, vêm buscar abrigo, nesta terra portuguesa, que serviu de berço à maior parte deles,

Seis dos nossos compatriotas de Xangai, por motivo de doença, assim que o vapor atracou foram retirados do bordo, em maca, pelo pessoal dos Serviços de Saúde e do Corpo dos Bombeiros Municipais, e conduzidos, em seguida, ao Hospital Central Conde S. Januário, onde ficaram internados. São eles:

Sras. Da. Sara Ribeiro, de 54 anos, Da. Maria Estefânia de Sena, de 59 anos, Da. Maria Amélia Guedes, de 56 anos, Da. Eleutária Rodrigues, de 56 anos, Da. Teresa Frutierrez, de 31 anos, e Sr. Frederico Luiz Hensen Canavarro, de 25 anos de idade.

Em camionetas da praça, especialmente fretadas para esse fim, seguiram os restantes para o edificio que lhes estava reservado (antigo Teatro “I Loc”), sito na Avenida Almirante Lacerda, ficando ali instaladas senhoras e crianças. Os poucos homens, que faziam parte do grupo, seguiram para a Casa dos Pobres – Secção Portuguesa do Asilo dos Inválidos – mantida pela C.C. de Assistência Publica.

Todos estes refugiados portugueses vieram acompanhados de Hongkong até Macau, do Sr. Campos e sua esposa, que foram duma solicitude extrema para todos

A viagem

Estes 110 portugueses que aqui chegaram ontem, segundo nos declararam alguns, tiveram em Xangai conhecimento do seu urgente embarque, uma hora antes da partida dos aviões.

Conforme puderam, apanharam as suas roupas e tudo o que julgaram mais indispensável para a viagem. Os três aparelhos da “China Air Transport Corporation”, que lhes estavam reservados, largaram do aeródromo de Xangai, às 16.30, do dia 17, com destino a Hongkong. Como, de porém, depois das 20 horas, não pudessem aterrar em Hongkong, os aparelhos tiveram de desviar o rumo para Cantão, onde aterraram cerca das 23.30 horas.

Em Cantão, uma parte da comitiva instalou-se num hotel da cidade e, como não houvesse quartos para todos, os restantes tiveram que passar a noite nas instalações do aeródromo.

Logo pela manhã de ontem, reuniram-se todos, novamente, no aeródromo de Cantão, donde os aparelhos levantaram voo às 8.45, com destino a Hongkong.

Os aparelhos aterraram, em Hongkong, 45 minutos depois, sendo os nossos compatriotas recebidos carinhosamente pela comunidade portuguesa da vizinha colónia.

O nosso Cônsul em Hongkong, Sr. Dr. Eduardo Brazão foi, segundo declaram alguns dos refugiados, de uma amabilidade extrema para com todos eles. O Sr. Cônsul mandou servir-lhes um almoço, no Club Lusitano, findo o qual, seguiram todos para o bordo do “Kwong Tung”.

Estes são os únicos dados que conseguimos colher acêrca desse punhado de portugueses que ontem chegaram e que, de braços abertos, foram recebidos por todos os que aqui os aguardavam.

Sabemos que, ainda há mais portugueses em Xangai, desejosos de vir para Macau ou Hongkong, mas, por enquanto nada se sabe de definitivo sôbre as possibilidades da sua vinda. Oxalá possam todos, dentro de poucos dias, juntar-se aos que aqui se encontram a disfrutar da mesma paz e tranquilidade que todos gozamos nesta pacifica terra portuguesa.

25 maio 1949

OFÍCIO Nº 242-M DE 25 DE MAIO DE 1949 DO PROVEDOR DA SANTA CASA DA MISERICÓRDIA, PEDRO JOSÉ LOBO, PARA O CHEFE DOS SERVIÇOS DE ADMINISTRAÇÃO CIVIL DE MACAU, MANUEL METELO.

IRMANDADE DA SANTA CASA DA MISERICORDIA DE MACAU

Série de 1949

N.º 242-M.

Assistência aos Refugiados de Xangai.

Exm.º Sr.

Para conhecimento de V. Ex.ª, tenho a honra de comunicar que esta Santa Casa, a quem está entregue a manutenção dos Refugiados de Xangai, resolveu o seguinte:-

1 –   A consulta médica deverá ser feita pela Delegacia de Saúde, às horas indicadas.

2 –   A hospitalização será na enfermaria de 3.ª classe do Hospital Conde de S. Januário, quando haja vaga, e no caso negativo, no Hospital de S. Rafael, também na enfermaria de 3.ª classe, excetuando os casos de doenças infeciosas, que serão sempre tratados no Hospital Conde de S. Januário.

3 –   As contas, quaisquer que sejam e que se relacionem com a manutenção dos mesmos Refugiados, deverão ser remetidos à cobrança na Santa Casa, que providenciará na forma indicada no Despacho de S. Ex.ª o Governador, publicado no B. O. n.º 20, de 14 do corrente.

A Bem da Nação.

Macau, Cartório da Santa Casa da Misericórdia, 25 de Maio de 1949.

Exm.º Sr.

Chefe da Repartição Central dos Serviços de Administração Civil.

O Provedor,

(assinatura)

Pedro José Lobo.

7 setembro 1949

CARTA DE 7 DE SETEMBRO DE 1949 ASSINADA POR G. E. ROLIZ, CHEFE DO CENTRO MASCULINO, E MERCIA FERREIRA, CHEFE DO CENTRO FEMININO, DIRIGIDA À SANTA CASA DA MISERICÓRDIA.

VIA AÉREA

S.R.

REPARTIÇÃO CENTRAL DOS SERVIÇOS DE ADMINISTRAÇÃO CIVIL

SANTA CASA DA MISERICÓRDIA

CÓPIA

(Assistência aos Refugiados Portugueses de Xangai)

--- Tradução ---

Macau, 27 de Agosto de 1949.

Exmos. Senhores:

Em vista da precária condição financeira que prevalece entre os refugiados de Xangai, desejamos pedir, através do vosso bondoso auspício, um subsídio mensal pelas seguintes razões:

Em primeiro lugar, mais de 80 por cento de refugiados chegaram aqui sem dinheiro, tendo deixado a maior parte das suas preciosas pertenças em Xangai, devido ao limite de 40 a 60 libras de bagagens, viajando via aérea de Xangai às 23 horas, o que causou falta de roupas, sapatos, diversos artigos e outras necessidades diárias imprevistas.

Nos três meses da nossa estadia aqui, em Macau, o pouco dinheiro que conseguimos trazer já não existe, pois que o despendemos em coisas necessárias, isto é, roupas para as crianças, sapatos, artigos de toucador, tráfico, cigarros e extraordinários. Por outro lado, muitos tiveram que dispor das roupas e dos poucos valores que possuíam a fim de obter o dinheiro para fazer face a essas despesas essenciais.

Outrossim, temos tentado conseguir emprego, de forma a podermos sustentar-nos a nós próprios e, ainda, aliviar o nosso generoso Governo deste encargo. Até aqui, porém, todos os nossos esforços têm resultado em vão.

Aproveitamos esta oportunidade para manifestar a nossa gratidão por todos os benefícios recebidos do Governo e da Santa Casa da Misericórdia e também para agradecer à Comissão que vem pugnando pelo nosso bem-estar, especialmente aos Srs. A. Batalha e J. Ferreira, que têm estado connosco continuadamente e que são sabedores de que este subsidio mensal é desesperadamente preciso.

Agradecemos a V. Exas. a necessária atenção que, com a brevidade possível, dispensarem a este assunto, subscrevemo-nos,

atentamente,

(assinados) G. E. Roliz, Chefe do Centro Masculino, e Mércia Ferreira, Chefe do Centro Feminino.

Está conforme. Macau, Cartório da Santa casa da Misericórdia, 9 de Setembro de 1949.

O Secretário, (ass. e Dat.) António Ferreira Batalha.

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